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Redação

quinta-feira - 25 de junho de 2026

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25/06/2026

QUANDO O ACOLHIMENTO VIRA SUSPEITA

Há poucas áreas em que a palavra pública pesa tanto quanto na assistência social. Ela lida com fome, frio, abandono, dependência, doença, família rompida e gente que, muitas vezes, já perdeu quase tudo antes de chegar ao balcão do Estado. Por isso, uma investigação sobre suspeita de corrupção em serviços voltados a pessoas em situação de rua em Florianópolis é um golpe direto na confiança de quem depende da rede de proteção e na obrigação de quem deveria cuidar dela.

A Polícia Civil deflagrou nesta terça-feira (23/06) a Operação Backstage para apurar irregularidades envolvendo a Secretaria de Assistência Social e serviços ligados à Passarela da Cidadania. A ação cumpriu sete mandados de busca e apreensão e afastou duas pessoas dos cargos. Segundo a investigação, há suspeita de conluio entre agentes ligados à administração pública e o representante de uma associação prestadora de serviços ao município. O grupo, em tese, teria atuado para direcionar um chamamento público destinado à contratação da entidade.

Os valores chamam atenção. O primeiro termo de colaboração com a Associação Alberto de Souza foi firmado em junho de 2025, com vigência de 90 dias e valor de R$ 3,3 milhões. Depois, veio um novo instrumento, com prazo de 12 meses e valor aproximado de R$ 21 milhões. A associação afirma que a contratação do Projeto Rumo Certo seguiu os requisitos legais, técnicos e administrativos previstos em edital, diz ter tranquilidade diante dos questionamentos e informa que vai colaborar com as apurações.

É preciso respeitar o curso da investigação, o direito de defesa e a presunção de inocência. Mas também é preciso dizer o óbvio institucional: quando uma política voltada ao atendimento de pessoas em situação de rua aparece sob suspeita, a resposta não pode ser apenas esperar o inquérito andar. Precisa haver revisão interna, fortalecimento dos controles, transparência nos contratos, clareza sobre metas, fiscalização do serviço prestado e explicação pública sobre como a cidade garante que sua rede de acolhimento não seja capturada por interesses de bastidor.

A Passarela da Cidadania concentra abrigo, alimentação, atendimento psicossocial e serviços de saúde para pessoas em vulnerabilidade. Ou seja, é uma das portas mais sensíveis da cidade. Se há suspeita de direcionamento em contratos dessa área, o dano não fica só no processo. Ele respinga em quem dorme na rua, em quem trabalha no atendimento, em quem precisa de comida, documentação, banho, escuta e encaminhamento.

Corrupção em qualquer área pública é grave. Na assistência social, ganha uma camada ainda mais dura, porque mexe com dinheiro destinado a quem já está no limite. Cada falha de controle nessa política pode significar menos estrutura, menos qualidade, menos confiança e mais descrédito sobre serviços que deveriam funcionar com rigor técnico e humanidade.

Florianópolis precisa tratar o caso com seriedade administrativa. A cidade precisa saber quem fiscaliza, como fiscaliza, quais resultados foram entregues, quais metas foram cumpridas, quais pagamentos foram feitos e que mecanismos impedem a repetição de suspeitas semelhantes. A discussão não deve ser sobre nomes, partidos ou disputas de ocasião. Deve ser sobre método, controle e responsabilidade pública.

A corrupção costuma prosperar onde a fiscalização é fraca, a transparência é baixa e a urgência social vira justificativa para contratos pouco explicados. A assistência social não pode ser esse lugar.

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