O Supremo Tribunal Federal formou maioria para derrubar a lei de Santa Catarina que proíbe cotas raciais em universidades. O julgamento ocorre em plenário virtual e, segundo a Folha de S.Paulo, já reúne 10 votos pela suspensão da norma.
Da aprovação por ampla maioria na Assembleia Legislativa à provável derrubada no STF, o projeto virou símbolo de um debate medíocre, que nasceu torto e pouco acrescenta à agenda real da educação — como a recorrente polêmica sobre “ideologia de gênero” nas escolas.
Na prática, já são mais de quatro meses de muita fumaça — e nada de cachimbo da paz.
E aqui entra o ponto central.
Não estamos falando de qualquer tema periférico. Estamos falando de educação — a pauta que deveria ser número um em qualquer eleição, seja majoritária ou proporcional.
Ainda assim, perde-se tempo — e dinheiro público — discutindo o óbvio ululante.
Qual é, afinal, o problema em oferecer uma pequena reserva de vagas para quem não teve acesso a uma formação de qualidade?
A meritocracia deve prevalecer, Rafael. Meritocracia pra quem, cara pálida?
A linha de largada nunca foi a mesma. Defender igualdade de competição sem reconhecer desigualdade de origem é transformar um princípio legítimo em caricatura.
Enquanto isso, a discussão real segue em segundo plano.
Santa Catarina tem indicadores educacionais acima da média nacional. Mas isso não significa que o sistema esteja resolvido. Há gargalos evidentes em infraestrutura, formação de professores e valorização da carreira docente.
Por que não concentrar energia política nisso?
Por que não avançar em um plano consistente que torne o magistério uma profissão atrativa?
Por que não investir em estrutura, permanência escolar e qualidade de ensino?
E, principalmente, por que ainda é tão difícil garantir dignidade e respeito a quem está todos os dias em sala de aula?
Quando o professor for reconhecido como o ator mais relevante na engrenagem de construção de um país minimamente soberano, talvez esse tipo de debate perca espaço.
Até lá, seguimos presos a uma disputa ruidosa e pouco produtiva — um teatro que pouco contribui para resolver o problema real.
E o cenário ainda se agrava.
Avançam propostas como a liberação do ensino domiciliar sob o argumento de proteção contra conteúdos considerados inadequados. Mais uma frente que desloca o foco do essencial.
Enquanto se perde tempo discutindo atalhos para agradar parte do eleitorado, o Estado — e, por consequência, o país — perde competitividade em setores estratégicos.
Porque, no fim, a equação é simples: para inovar, é preciso pensar. E, para pensar, é preciso estudar — com qualidade, profundidade e acesso.
O resto é palco.
-16 de abril de 2026
