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sexta-feira - 19 de junho de 2026

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19/06/2026

LAGOA NÃO É RALO

A limpeza da Lagoa da Chica começou nesta quinta-feira (18/06), no Campeche, dentro do pacote de ações da Prefeitura de Florianópolis para reduzir impactos do El Niño. A medida é necessária. As macrófitas aquáticas tomaram conta de mais de 90% da superfície, comprometem a oxigenação da água, dificultam o escoamento das chuvas e transformam um patrimônio natural em imagem de abandono. O problema é tratar o caso como urgente agora, embora a degradação da lagoa venha se acumulando há anos.

Se a lagoa precisa ser limpa porque pode ajudar a cidade em um cenário de chuva forte, ela já deveria estar sendo cuidada antes de virar peça de plano emergencial. A Lagoa da Chica não é um ralo bonito no mapa do Campeche. É ambiente vivo, área de drenagem, espaço de memória, ponto de lazer, abrigo de fauna, parte de uma unidade de conservação e indicador silencioso da relação de Florianópolis com seus corpos d’água. Quando a cidade só olha para ela porque o El Niño ameaça, o recado é ruim. Parece que a lagoa vale pelo serviço que pode prestar no desastre, não pelo que representa todos os dias.

A prefeitura afirma que a limpeza será manual, com apoio de embarcação pequena e acompanhamento técnico da Floram, sem remoção da vegetação usada por animais para nidificação, alimentação ou descanso. Mas o cuidado técnico de agora não apaga a pergunta que moradores fazem há anos: como a Lagoa da Chica chegou a esse ponto de novo?

Em 2022, ela já aparecia em casos de assoreamento, perda de volume, falta de monitoramento periódico e ausência de respostas mais profundas. Antes disso, em 2017, passou por revitalização. O ciclo se repetiu. Florianópolis conhece esse roteiro: espera degradar, age sob pressão, anuncia intervenção, fotografa a resposta e volta a conviver com o mesmo problema até ele reaparecer com outro nome.

O caso não é isolado. Lagoinha do Norte e Lagoa da Chica carregam problemas parecidos, com pressão urbana, assoreamento, suspeitas de contaminação, carência de estudos e dependência de decisões que andam mais devagar do que a degradação. No Sul da Ilha, a falta de rede de esgoto completa e a demora na consolidação de soluções estruturais, como a ETE Rio Tavares, ajudam a compor o pano de fundo. Parte desse atraso passa por conflitos que se arrastam há anos entre poder público, órgãos de controle, entidades e comunidades.

Não falta alerta. Mas não é por falta de vontade e nem de recurso que Estado e município não conseguem avançar em alguns dos gargalos que cercam a região. Já passou da hora de construir um consenso entre o poder público e as entidades que, de alguma forma, travam essa evolução.

Se a Lagoa da Chica pode ajudar a cidade a enfrentar chuvas fortes, então merece monitoramento, manejo, saneamento, fiscalização e planejamento antes da próxima emergência. Limpar agora é importante. Cuidar sempre é obrigação.

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