A FIESC entregou na sexta-feira (19/06) a Ordem do Mérito Industrial e Sindical de Santa Catarina em uma cerimônia marcada por homenagens a industriais e sindicatos, mas também por críticas ao ambiente político e econômico que pressiona o setor produtivo. O presidente da federação, Gilberto Seleme, afirmou que há um descompasso entre o governo federal e a realidade de quem produz, especialmente diante de propostas que, segundo ele, afetam a competitividade, pressionam empresas e ignoram a estagnação da produtividade no país.
A maior honraria da indústria catarinense reconheceu a trajetória de cinco industriais e de dez sindicatos filiados à FIESC. O tom da noite, no entanto, foi além da celebração. Seleme usou o discurso para alertar sobre medidas discutidas em Brasília em ano eleitoral, como a tentativa de reduzir a jornada de trabalho sem, na avaliação da federação, um debate consistente sobre produtividade e mudanças no mundo do trabalho.
Para o presidente da FIESC, a discussão tem sido conduzida de forma superficial e descolada da realidade das empresas. Ele também relacionou o cenário ao desequilíbrio fiscal, que, segundo sua avaliação, pressiona a manutenção de juros elevados e aumenta o custo de investimento no país.
“O debate é superficial e ignora a estagnação da produtividade brasileira e as mudanças drásticas em curso no mundo do trabalho. Também enfrentaremos em breve as duras consequências do descontrole fiscal do país, que acaba motivando a manutenção de juros altos”, afirmou Seleme.
O presidente da federação também criticou a narrativa que coloca o empreendedor como adversário da sociedade. Segundo ele, o setor produtivo não pode ser tratado como fonte permanente de recursos para cobrir desequilíbrios do Estado.
Mario Cezar de Aguiar, ex-presidente da FIESC e homenageado pela Confederação Nacional da Indústria por indicação da federação catarinense, reforçou a avaliação ao afirmar que o crescimento da arrecadação pública não tem resultado, na mesma proporção, em melhores serviços básicos ou infraestrutura adequada. Para ele, o país vive uma inversão de valores que sacrifica o desenvolvimento econômico em favor de interesses políticos de curto prazo.
Na avaliação de Aguiar, empreender no Brasil deixou de ser apenas uma atividade econômica e passou a exigir perseverança cívica. A frase resume o sentimento manifestado por lideranças industriais diante de um ambiente de negócios pressionado por carga tributária, burocracia, juros altos, insegurança regulatória e decisões públicas que chegam à fábrica antes de passarem por um debate técnico mais consistente.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, também participou da cerimônia e destacou o dinamismo da indústria catarinense. Para ele, a indústria brasileira precisa recuperar sua voz pública e atuar de forma mais propositiva. Alban afirmou que empresários de todos os portes têm autoridade para cobrar da política a mesma capacidade de inovação e reinvenção que a sociedade costuma exigir do setor produtivo.
A solenidade reconheceu trajetórias empresariais ligadas a diferentes regiões e segmentos de Santa Catarina. Foram homenageados Diomício Vidal, fundador da Modal Indústria do Vestuário, de Criciúma; Ildo Antônio Simon, fundador da Rotoplast Indústria de Climatizadores Evaporativos, de Maravilha; Moacir Antônio Marafon, cofundador e membro do Conselho de Administração do Grupo Softplan, de Florianópolis; Rafael Mirando da Silva, fundador e diretor-superintendente da Cia. Canoinhas de Papel, de Canoinhas; e Mario Cezar de Aguiar, ex-presidente da FIESC e fundador da Vectra Participações e Construções.
A Ordem do Mérito Sindical de Santa Catarina foi concedida a dez entidades industriais. Entre elas estão sindicatos de Blumenau, Joinville, Ibirama, Rio do Sul, Jaraguá do Sul, Criciúma, Brusque e do Oeste catarinense, representando áreas como metalurgia, mecânica, material elétrico, têxtil, vestuário, construção, mobiliário, arroz, madeira, móveis e indústria gráfica.
A cerimônia mostrou a força de um setor que segue entre os principais motores da economia catarinense, mas também deixou um recado político. A indústria quer ser reconhecida não apenas quando gera emprego, inovação e arrecadação, mas também quando alerta para decisões que podem reduzir competitividade e ampliar a distância entre o discurso público e a rotina das empresas.
Em Santa Catarina, onde a indústria tem peso no emprego, na inovação e na arrecadação, a cobrança ganha efeito direto. O debate chega ao chão de fábrica, ao sindicato, ao fornecedor, ao trabalhador e ao empreendedor que precisa decidir se investe, segura caixa ou adia planos. A homenagem da FIESC foi para quem constrói. O recado foi para quem decide.
-19 de junho de 2026
