Santa Catarina conhece o barulho da chuva antes de ela virar notícia nacional. Sabe o que acontece quando o rio cresce mais rápido que a resposta pública, quando a encosta cede, quando a estrada some, quando a família olha para a água entrando pela porta e entende que o prejuízo não será só material. Por isso, diante da possibilidade de um El Niño forte a partir da primavera, com efeitos que podem avançar pelo verão de 2026 e 2027, prevenção não pode ser tratada como providência de última hora. Tem que ser obrigação permanente.
O decreto estadual que cria critérios para situação de emergência e calamidade pública é um avanço administrativo. Define parâmetros como chuva acima de 80 milímetros em 24 horas com danos, 150 milímetros em 72 horas com danos, mortes, desaparecimentos, famílias desabrigadas, comunidades isoladas e interrupção de serviços essenciais. Ter regra evita improviso, acelera decisões e reduz a disputa burocrática quando o cenário exige resposta rápida.
Mas decreto não segura barranco. Não drena rua, não desassoreia rio, não cria rota segura, não recupera mata ciliar e não tira família de área vulnerável. Ele organiza a reação quando o problema já apareceu. A pergunta que importa vem antes. O que está sendo feito para que a próxima chuva forte não encontre Santa Catarina no mesmo lugar?
Esse é o ponto que o Estado e os municípios ainda precisam encarar com mais seriedade. A cada primavera intensa, a cada verão de temporal, a cada ciclone, enchente ou deslizamento, volta a mesma explicação.
Foi muita chuva em pouco tempo. É verdade. Mas também foi pouca preparação durante muito tempo.
Projetos como o Tom Jobim, que deve testar em Trombudo Central a ideia de parque-esponja, apontam uma direção importante. A cidade do Alto Vale do Itajaí, marcada pela enchente de novembro de 2023, quando o Rio Trombudo chegou perto de 10 metros, foi escolhida como piloto para soluções urbanas capazes de absorver grandes volumes de chuva e reduzir alagamentos. É o tipo de resposta que Santa Catarina precisa levar mais a sério.
Parques-esponja, drenagem urbana resiliente, arborização estratégica, mapeamento de vulnerabilidades, gabinete preventivo, dados abertos e integração entre Defesa Civil, municípios e órgãos técnicos são ferramentas para um estado que vive repetindo tragédias parecidas com cenários diferentes.
O desastre natural pode ser inevitável. A tragédia anunciada, não. Santa Catarina não precisa descobrir de novo que reconstruir custa mais caro do que prevenir. Precisa transformar alerta climático em política permanente, com orçamento, equipe, fiscalização, obra e manutenção. Porque quando a água sobe, não adianta inaugurar plano. A cidade já está contando prejuízos.
-26 de maio de 2026
