Nunca o brasileiro esteve tão endividado. E, desta vez, o número não permite maquiagem. Em março, 80,4% das famílias estavam endividadas, o maior nível da série histórica da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Ao mesmo tempo, 81,7 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em fevereiro, segundo a Serasa — quase metade da população adulta.
A dívida média já passa de R$ 6,5 mil por pessoa. Não é mais exceção. É regra. O cartão de crédito segue como o rosto mais visível desse problema, presente em 84,9% das dívidas das famílias, enquanto o rotativo cobra 435,9% de juros ao ano. Mas focar só no cartão é olhar a superfície.
Por trás da conta está o custo do dinheiro: a Selic em 10,75% ao ano mantém o crédito caro, trava renegociações e dificulta sair da dívida. No Brasil, parcela-se tudo — da geladeira ao mercado — e, cada vez mais, o próprio mês seguinte.
E a conta só aumenta.
Santa Catarina segue com indicadores menores que a média nacional. Mas a crise chegou por aqui também. Cerca de 4 em cada 10 adultos estão inadimplentes, em linha com o Sul, que se aproxima de 40% da população negativada. E o dado mais recente reforça o alerta: 26,8% das famílias catarinenses estavam com contas em atraso em março. Mais de um quarto das casas já opera no limite.
Santa Catarina não escapa. Só sofre em escala menor. Nesse ambiente, as bets encontraram terreno fértil. Vendidas como renda extra, com linguagem de investimento e rosto de influenciador, entraram direto na rotina de quem já estava pressionado. Para parte dos endividados, o jogo virou extensão da dívida — não aparece no boleto, mas corrói a renda do mesmo jeito. É raso culpar só o consumidor.
Há crédito sendo empurrado para quem não pode pagar, juros que transformam dívidas pequenas em condenações e plataformas explorando fragilidade econômica. O resultado é um ciclo previsível: renda apertada leva ao crédito caro, que leva à inadimplência e empurra para atalhos de risco.
No fim, o Brasil se aproxima de um ponto desconfortável: mais de 80% das famílias endividadas e quase metade dos adultos inadimplentes. Não é desvio. É o funcionamento normal da economia real. Um país onde milhões trabalham para pagar o passado perde o futuro. Dívida, hoje, não é só estatística. É rotina.
-22 de abril de 2026
