O emaranhado de fios nos postes virou retrato de cidades que muitas vezes crescem por cima da própria desordem. Cabos soltos ou clandestinos atravessam ruas, fachadas e calçadas como se fossem parte natural da paisagem. Não são. São restos de serviços mal fiscalizados, instalações abandonadas, responsabilidades empurradas e uma infraestrutura que não faz parte de uma cidade organizada.
Enquanto capitais e grandes municípios do país recorrem a forças-tarefas e multas para tentar conter o perigo nas ruas, Santa Catarina começa a mostrar que esse problema pode ter outro destino. A Celesc já retirou e encaminhou para reciclagem cerca de 75 toneladas de cabos de telefonia excedentes e irregulares, dentro de um modelo que combina limpeza urbana, economia circular e geração de renda. O que antes era passivo perigoso, sem valor aparente e pendurado sobre a cabeça das pessoas, começa a virar sustento para famílias e matéria-prima para a indústria.
O ciclo começa nas operações de fiscalização e limpeza dos postes. Depois, o material recolhido vai para cooperativas como a Reciclavale, de Itajaí, onde ajuda a sustentar famílias que vivem da reciclagem. Para muitas cooperadas, várias delas chefes de família, a crise dos fios virou uma oportunidade de renda e dignidade.
“Esse resíduo é o que garante a nossa sobrevivência, pagando as contas da semana e mantendo a cooperativa ativa. Por isso, inclusive, nossas cooperadas olham para a Celesc com orgulho e dizem que é a nossa empresa”, afirma Marli das Dores Martins, presidente e fundadora da cooperativa, que tem 16 colaboradores diretos e impacta indiretamente cerca de 30 famílias na comunidade.
A relação não fica restrita aos cabos. Móveis antigos e fora de uso da Celesc também são restaurados pelas cooperadas e doados para casas de recuperação, igrejas e famílias carentes. O descarte ganha função, a cooperativa ganha trabalho e a cidade ganha uma resposta melhor do que apenas tirar o problema da vista.
Depois da triagem em Itajaí, os cabos seguem para a Soffer Sucatas, em Tijucas. A empresa atua nesse processo desde 2012 e mobiliza 12 funcionários diretos registrados, além de cerca de 21 colaboradores indiretos. O recebimento mensal desses lotes garante renda para dezenas de pessoas na região e mostra que a reciclagem também pode ter escala industrial.
Na unidade, um equipamento conhecido como shredder tritura o material e separa o plástico e a borracha dos componentes metálicos. “Neste processo industrial, realizamos a separação rigorosa das impurezas e a classificação dos metais. O material deixa de ser um resíduo bruto das ruas e se transforma em matéria-prima limpa e altamente preparada para abastecer a siderurgia”, explica Katrini Vicente Ventura, administradora da Soffer Sucatas.
É uma boa resposta para um problema antigo.
Após o processamento em Santa Catarina, a sucata metálica segue para fornos elétricos de uma das maiores multinacionais do setor metalúrgico instaladas no país. Ali, o resíduo é derretido e transformado em aço líquido. Depois, retorna ao mercado em insumos usados por obras de infraestrutura e pela construção civil de Norte a Sul do Brasil. A cidade perde um risco e a indústria ganha matéria-prima.
A retirada dos cabos não termina no caminhão. Passa por cooperadas, trabalhadores, empresas de reciclagem, tecnologia industrial e siderurgia. O resíduo ganha caminho, e o problema vira parte de uma solução com efeito social e ambiental.
O setor elétrico já começa a tratar esse tipo de iniciativa como tendência nacional. Em São Paulo, o Grupo CPFL Energia mantém uma reformadora de equipamentos que recupera ativos como transformadores, religadores e reguladores de tensão, estendendo em até 20 anos a vida útil desses materiais. O que não pode ser reaproveitado segue para logística reversa e reciclagem de cobre e alumínio. A lógica é parecida. Antes de comprar mais, descartar mais e pressionar mais a cadeia produtiva, é preciso olhar para aquilo que ainda pode voltar ao sistema.
A paisagem urbana fala. Quando os postes viram novelos de cabo, ela está dizendo que alguém deixou de cuidar antes. O modelo da Celesc aponta um caminho melhor, com reaproveitamento, cooperativas e indústria no mesmo ciclo.
A iniciativa catarinense também acena para um setor elétrico nacional que precisa enfrentar, com urgência, a ocupação desordenada das estruturas de compartilhamento. “A retirada do cabeamento em excesso ou irregular resolve uma equação complexa de engenharia e segurança que hoje aflige cidades em todo o Brasil”, pontua o gerente de telecomunicações da Celesc, Eduardo Marcussi. “Ao transformarmos esse problema em um ativo de valor social, abrindo mão do retorno financeiro em prol de cooperativas locais, criamos um ciclo de triplo ganho. Mostramos que é possível limpar as cidades, gerar emprego na base e abastecer a grande indústria nacional através da sustentabilidade real”, conclui.
Santa Catarina mostra que dá para transformar caos urbano em renda.
-25 de junho de 2026
