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sábado - 30 de maio de 2026

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30/05/2026

MORADIA NÃO PODE ESPERAR

Florianópolis abriu um novo edital para tentar tirar do papel um projeto de habitação popular no bairro mais caro da cidade. A proposta prevê entre 100 e 120 apartamentos do Minha Casa Minha Vida na Agronômica, em um terreno público de 4,6 mil metros quadrados nos fundos dos hospitais Joana de Gusmão e Nereu Ramos. As unidades terão área mínima de 44,5 metros quadrados e valor máximo de R$ 169,5 mil.

Na Agronômica, o metro quadrado chegou a R$ 15,8 mil. Colocar moradia popular em uma área desse preço rompe, ainda que pouco, a lógica que empurra trabalhadores para longe dos hospitais, dos empregos, dos serviços públicos e da vida urbana consolidada. Em uma cidade cada vez mais cara, morar perto de onde a vida acontece virou privilégio.

A notícia também cobra memória. Florianópolis não começou ontem a tropeçar em política habitacional. Em 2011, a capital já aparecia mal no Minha Casa Minha Vida, de acordo com dados do Pense Imóveis. Tinha mais de 14 mil inscritos, verba para 1,1 mil moradias e nenhum contrato assinado para famílias de menor renda na primeira fase do programa. Na época, o custo dos terrenos, os entraves ambientais, o zoneamento e a falta de articulação política já apareciam como explicações. Quinze anos depois, parte do roteiro continua familiar demais.

A cidade tem terreno público, demanda evidente e programa federal disponível. Também tem 5,5 mil famílias cadastradas na Secretaria Municipal de Habitação e uma meta anunciada de construir 3 mil unidades nos próximos cinco anos. O problema é que promessa habitacional precisa andar no tempo de quem paga aluguel.

Há avanços. O novo decreto municipal passou a exigir residência mínima de cinco anos em Florianópolis, criou pontuação por vulnerabilidade e reservou cotas para idosos, pessoas com deficiência e pessoas em situação de rua em projetos vinculados ao Minha Casa Minha Vida. Também há discussão sobre usar áreas públicas abandonadas, como aterros da Baía Sul e da Via Expressa Sul, para moradia social. Em tese, é o tipo de medida que aproxima política habitacional de planejamento urbano.

Mas Florianópolis precisa parar de tratar moradia popular como exceção. O risco é transformar cada edital em vitrine e esquecer o entorno. O Carianos mostrou como a falta de diálogo pode virar resistência. Moradores questionaram a ausência de estudo de impacto de vizinhança, saneamento, escolas, segurança e estrutura para receber centenas de novas unidades. Habitação popular precisa de transporte, creche, posto de saúde, drenagem, iluminação, comércio, espaço público e conversa com quem já vive no bairro.

Também é preciso enfrentar a contradição do patrimônio público abandonado. Enquanto a cidade discute onde colocar moradia social, prédios federais sem uso seguem deteriorados em áreas centrais, como o antigo almoxarifado do INSS e o prédio do Ibama na Mauro Ramos, além do edifício do INSS na Ivo Silveira. Em uma cidade cara, imóvel público vazio é desperdício urbano.

Construir até 120 apartamentos na Agronômica é um passo importante. Mas não pode ser vendido como resposta suficiente para uma crise que se espalhou pela cidade inteira. Florianópolis cresce, valoriza seus bairros, atrai investimento e comemora bons indicadores. Ao mesmo tempo, vê trabalhadores sendo expulsos aos poucos pelo aluguel, pelo preço do solo e pela distância.

Moradia popular é infraestrutura básica. Uma cidade que quer funcionar precisa garantir que quem limpa, constrói, atende, cuida, dirige, vende e mantém a vida urbana de pé também tenha o direito de morar nela.

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