O manguezal do Itacorubi não entrou em colapso agora. Ele vem sendo empurrado para isso há pelo menos três décadas — com conhecimento técnico, alertas reiterados e uma sequência previsível de omissões.
A mortandade de peixes registrada nos últimos dias apenas materializa o que já estava posto. A divergência entre Universidade Federal de Santa Catarina e Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina sobre o gatilho imediato pouco altera o diagnóstico central: faltou oxigênio na água. E isso não acontece por acaso.
De um lado, a leitura de poluição crônica por esgoto sem tratamento, excesso de matéria orgânica e falhas no saneamento. De outro, a hipótese de floração de microalgas em áreas de baixa circulação. Em comum, o reconhecimento de um ambiente saturado — pressionado por fatores que vêm sendo acumulados desde os anos 1990, quando o avanço urbano sobre a bacia do Itacorubi já indicava o roteiro que agora se confirma.
Com cerca de 170 hectares, o mangue do Itacorubi não é um detalhe paisagístico. É um dos principais sistemas de filtragem natural da cidade, berçário de espécies e peça-chave no equilíbrio da baía. Ainda assim, foi tratado ao longo do tempo como área residual — um espaço que absorve o que a cidade não consegue ou não quer resolver.
A retirada de mais de 350 quilos de peixes, o equivalente a mais de 23 mil manjubinhas, não deveria surpreender. Ela apenas dá escala visível a um processo silencioso e contínuo de degradação.
O que chama atenção não é a complexidade do problema, mas a persistência da inércia. Há décadas se sabe da deficiência no saneamento, da drenagem precária e da carga de poluição que chega ao manguezal. Ainda assim, o tema reaparece sempre como episódio, nunca como prioridade.
Se o histórico do próprio sistema de saneamento básico da região — que impacta diretamente a vida da população — já revela uma condução lenta, fragmentada e frequentemente reativa, o destino de um manguezal urbano acaba sendo quase previsível. Quando o essencial não avança, o ambiental vira rodapé.
O caso do Itacorubi expõe mais do que um colapso ecológico. Ele escancara um padrão: o de problemas conhecidos, tecnicamente mapeados e politicamente tolerados até que se tornem impossíveis de ignorar. A pergunta, mais uma vez, não é o que aconteceu agora — mas por que, sabendo disso há tanto tempo, quase nada foi feito antes.
-27 de abril de 2026
