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Redação

quarta-feira - 15 de abril de 2026

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15/04/2026

Orelha passou, Sansão ficou — e nada mudou nas ruas

Sansão não viralizou. Não mobilizou celebridades, não gerou comoção nacional, não virou trending topic. Vive ali, anônimo, nas ruas de um bairro da região continental de Florianópolis, sustentado por um pacto silencioso entre moradores: água, comida, uma casinha improvisada e o mínimo de dignidade possível. É o retrato do chamado cão comunitário — aquele que não tem dono, mas também não está completamente abandonado.

A imagem contrasta com a do Orelha, que por alguns dias virou símbolo de uma indignação barulhenta, apressada e, no fim, descartável. Houve julgamento, houve sentença e houve linchamento — tudo no tribunal mais rápido que existe: o das redes sociais. Depois, como sempre, veio o silêncio. Nenhuma política pública estruturante, nenhum avanço consistente, nenhuma mudança real.

Sansão não tem narrativa. Tem rotina. E é justamente isso que escancara o incômodo: passada a catarse digital, nada mudou. Os animais de rua seguem aumentando, invisíveis na maior parte do tempo, enquanto o poder público continua correndo atrás do próprio rabo — quando corre.

Sansão, assim como Orelha, é retrato da hipocrisia virtual: todos apontam o dedo, mas poucos fazem na vida real.

Os números tiram qualquer dúvida: somente em Santa Catarina, são mais de 1,7 mil casos de maus-tratos a cães registrados por ano. Fora os que nunca chegam a virar estatística. Não é exceção. É sistema.

Sansão está bem, dentro do possível. Mas isso diz mais sobre a boa vontade de alguns do que sobre qualquer solução organizada.

O barulho passa. Os cães ficam.

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