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quinta-feira - 2 de abril de 2026

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02/04/2026

UFSC terá segundo turno e votação escancara racha interno

A eleição da UFSC para reitor e vice-reitor no período 2026–2030 terá segundo turno — e o primeiro retrato das urnas escancara o tamanho da fragmentação interna da Universidade Federal de Santa Catarina. A prévia, divulgada na madrugada desta quinta-feira pela Comissão Eleitoral, mostra que nenhuma das três chapas se aproximou da maioria, consolidando um cenário de disputa aberta até o fim. O resultado final, com a totalização de todas as urnas, será divulgado ainda hoje, até o final da tarde, com nova votação já marcada para o dia 14 de abril.

Na dianteira aparece a Chapa 41 – Mudar para Transformar, de Amir de Oliveira Junior e Felipa Amadigi, com 37,59% dos votos ponderados (4.954 votos), representando a oposição direta e capturando o sentimento de mudança que atravessa parte da universidade. Logo atrás, a Chapa 52 – UFSC Unida, da reeleição de Irineu Manoel de Souza e Rodrigo Moretti, soma 32,55% (2.726 votos), sustentada principalmente pela base dos servidores técnicos. Já a Chapa 63 – Conhecer é Transformar, de João Martins e Luana Heinen, formada pelos dissidentes da atual gestão, registra 29,87% (4.890 votos) e se ancora, sobretudo, no voto estudantil.

Mais do que a liderança, o dado central está na curta distância entre as três candidaturas — um retrato fiel de uma universidade dividida em blocos quase equivalentes de poder.

O que deveria ser mais um rito institucional da maior universidade pública de Santa Catarina ganhou contornos de eleição política clássica. A disputa ultrapassou o campo acadêmico e mergulhou de vez na lógica de poder — com acusações, rachas internos e narrativas em confronto.

Na ponta, a Chapa 41, de Amir e Felipa, lidera o parcial ao capturar um sentimento difuso de saturação institucional. Sem vínculo com a atual gestão, consolida apoio entre técnicos não alinhados ao sindicato, estudantes independentes e professores críticos à condução de temas sensíveis, como o plano de saúde e o Hospital Universitário.

A Chapa 52, de Irineu e Moretti, tenta a reeleição ancorada, sobretudo, na base dos servidores técnicos — o que ajuda a sustentar sua competitividade mesmo sob desgaste. A gestão acumulou críticas internas e externas e viu seu vice ser exposto em um episódio que elevou o tom da campanha: um vídeo do ex-deputado Bruno Souza acusando Moretti de “traição” e associando a atual administração a um projeto ideológico.

Já a Chapa 63, de João Martins e Luana Heinen, carrega uma contradição difícil de contornar. Ambos integraram o núcleo duro da atual gestão até poucos meses atrás. A ruptura — marcada pela saída em bloco de pró-reitores e pelo afastamento da vice-reitora Joana dos Passos, que denunciou “violência política de gênero” — transformou antigos aliados em adversários. Com base relevante entre estudantes, a chapa ainda responde a uma pergunta incômoda: por que só agora?

A votação ocorreu nesta quarta-feira, 1º de abril, de forma presencial, com urnas fornecidas pelo TRE-SC, entre 08h e 21h. O total de eleitores das três categorias supera 40 mil pessoas, distribuídas entre os campi de Florianópolis, Araranguá, Blumenau, Curitibanos e Joinville. O modelo é paritário: cada segmento — estudantes, técnicos e docentes — tem peso de um terço dos votos.

Até o momento, foram contabilizados 12.730 votantes, sendo 9.277 estudantes, 1.572 docentes e 1.721 técnicos administrativos, além de 81 votos nulos e 79 em branco.

A apuração começou com atraso, após inconsistências na lista de votantes do campus de Blumenau, e será retomada ao longo desta quinta-feira com os votos de Araranguá, Blumenau e Joinville, além da análise de uma denúncia formal sobre o processo.

O cenário, no entanto, já está definido: ninguém vence no primeiro turno. Com três chapas competitivas, o segundo turno, marcado para 14 de abril, deixa de ser possibilidade e passa a ser consequência.

No fim, o que está em jogo vai além de nomes. A eleição da UFSC expõe uma instituição atravessada por tensões políticas, disputas de narrativa e perda de coesão interna. E deixa uma pergunta que não cabe mais adiar: quem, de fato, está governando — e para onde — uma das estruturas mais estratégicas do estado?

Reconhecida nacional e internacionalmente como um centro de excelência em pesquisa — com presença recorrente entre as melhores universidades do país em rankings como o Ranking Universitário Folha (RUF) e o Times Higher Education (THE) — a Universidade Federal de Santa Catarina, que já enfrenta dificuldades crônicas de financiamento, se vê agora cada vez mais mergulhada em disputas políticas internas, enquanto o avanço do conhecimento e da pesquisa perde espaço.

Na prática, isso apenas alimenta o discurso daqueles que insistem em reduzir a universidade a um reduto de militantes e improdutivos — os mesmos que criticam nas redes, mas celebram quando o filho conquista uma vaga na federal.

— Porque, quando a universidade entra em racha, o conhecimento vira figurante.

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