Na emergência, a distância entre ajudar e atrapalhar às vezes cabe numa fila.
Florianópolis entregou mais de 10 mil telhas a mais de 400 famílias nesta terça-feira (1º/09), primeiro dia da distribuição do material para moradores atingidos pelo granizo.
É ajuda concreta.
Depois de dias tentando impedir que a água continuasse entrando pelas casas, centenas de famílias saíram de Canasvieiras com aquilo que pode começar a devolver um telhado de verdade.
Mas muita gente também encontrou outro obstáculo no caminho.
A concentração das retiradas no Centro de Eventos Luiz Henrique da Silveira levou uma grande quantidade de veículos para o mesmo ponto e provocou filas que chegaram aos acessos da SC-401. Houve moradores esperando desde a manhã por uma distribuição que começaria à tarde.
Seria fácil olhar para a cena no dia seguinte e decretar que a operação foi mal planejada. Também seria injusto ignorar o contexto.
A cidade precisou organizar em poucos dias a compra, separação e distribuição de dezenas de milhares de telhas depois de um temporal que atingiu milhares de imóveis. Não existe manual capaz de transformar uma emergência dessa dimensão numa operação sem atrito.
Mas emergência também se administra corrigindo aquilo que não funcionou bem.
E foi isso que a própria prefeitura precisou começar a fazer.
Nesta quarta-feira (2/09), o ponto de Canasvieiras passa a atender apenas os moradores que receberam senha na terça, tiveram o material reservado e não conseguiram fazer o carregamento. A entrega descentralizada também começa no Norte da Ilha, com caminhões percorrendo as regiões mais atingidas e distribuição em pontos das comunidades. Idosos, pessoas com deficiência e outros casos prioritários poderão receber as telhas em casa. Centro e Continente entram na operação a partir de quinta-feira (3/09).
O congestionamento do primeiro dia não apaga as mais de 10 mil telhas entregues. Mas as telhas entregues também não tornam a fila irrelevante.
As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.
A primeira operação atendeu centenas de famílias e mostrou uma limitação. A segunda precisa usar essa experiência para funcionar melhor.
Esse talvez seja o principal teste de uma força-tarefa: não acertar tudo de primeira, mas perceber rapidamente onde a resposta está criando um obstáculo adicional e mudar o caminho.
Ainda haverá muito material para distribuir. Haverá casas com necessidades diferentes, famílias que ainda não se cadastraram corretamente e moradores para quem entregar as peças será apenas o começo do problema de reconstruir o telhado.
Por isso, o número que mais importa não estará apenas no estoque.
A melhor medida da operação será quantas telhas chegaram à casa certa, no tempo necessário e sem obrigar quem já carrega o peso do temporal a enfrentar outro problema para receber ajuda.
-2 de setembro de 2026
