Quando uma cidade precisa aprovar uma lei para dizer que agredir, ameaçar ou humilhar um professor é inaceitável, o tecido social falhou no básico. A escola depende de um pacto antigo e civilizatório. O professor ensina, o aluno aprende, a família acompanha e o poder público garante condições para que esse encontro aconteça. Quando esse pacto passa a precisar de multa, advertência, reunião obrigatória e restrição de acesso, o problema deixou de ser apenas escolar. Virou retrato de uma sociedade que desaprendeu a respeitar quem sustenta a sala de aula.
O projeto apresentado na Câmara de Florianópolis, chamado Professor Merece Respeito, tenta responder a uma realidade que ultrapassou o limite do incômodo. A proposta prevê punições administrativas para pais, responsáveis ou terceiros que pratiquem agressões, ameaças, constrangimentos, assédio, exposição vexatória ou violência digital contra profissionais da educação. As multas podem chegar a um salário mínimo e, em casos graves ou reincidentes, o agressor pode ter acesso restrito à escola.
Florianópolis não está reagindo a um problema distante. Em 2025, um professor foi agredido por um pai de aluno em frente à Escola de Educação Básica Muquém, no Rio Vermelho. O caso mobilizou a comunidade escolar, gerou medo entre professores e estudantes e expôs uma cena que deveria envergonhar qualquer cidade. Em 2020, a diretora Elenir de Siqueira Fontão foi assassinada dentro da Escola Januária Teixeira da Rocha, no Campeche. São casos com naturezas diferentes, mas unidos pela mesma constatação. A escola deixou de ser vista por parte da sociedade como espaço protegido.
Nos últimos anos, a violência contra educadores deixou de ser só grito no corredor. Passou a ocupar celular, rede social, grupo de WhatsApp, gravação escondida, ameaça pública, exposição vexatória e ataque físico. O professor virou alvo de famílias desorientadas, alunos sem limite, disputas ideológicas, abandono institucional e de uma cultura que exige resultado da escola enquanto desautoriza quem trabalha nela.
O Brasil fala muito de educação, mas cuida pouco de quem educa. Cobra desempenho, inovação, inclusão, acolhimento, disciplina, mediação de conflitos e resposta para quase tudo que a sociedade não resolveu em casa ou na política. Ao mesmo tempo, entrega ao professor salário pressionado, salas cheias, estrutura insuficiente, insegurança e sobrecarga emocional.
Não existe educação quando o educador trabalha sob medo, humilhação ou linchamento público. Ninguém forma futuro sendo tratado como inimigo presente.
Se a lei for necessária para recolocar limites, que venha. Mas ela não pode servir como maquiagem para uma ferida maior. Escola não melhora só com multa no papel e discurso em plenário. Melhora com valorização profissional, apoio psicológico, mediação de conflitos, presença responsável das famílias, equipes completas, estrutura adequada e respeito cotidiano.
Quando o professor precisa pedir licença para ensinar, a sociedade reprovou antes da prova começar.
-5 de junho de 2026
