Todo grande desfile começa antes do apito do mestre de bateria. Na concentração, dois jornalistas, em tese concorrentes, ainda não imaginavam o que o universo reservava para eles. Não estavam ali a passeio, mas a trabalho. Era 24 de fevereiro de 2001. A internet já era realidade nas empresas de comunicação, mas as informações mais básicas ainda eram transmitidas pelo orelhão.
Veio o esquenta. O couro da bateria. O calor da multidão. E o samba-enredo explodindo no sistema de som. Entre uma pauta e outra, um olhar demorou. Naquela madrugada, após encerrar as atividades, veio o convite para o camarote, com um freezer abarrotado de cervejas. Foi ali que surgiu o quase. A timidez dele, anestesiada por algumas latas depois do trabalho, desapareceu. Ele avançou, bocas a centímetros. Ela ainda brincava com outro rapaz que havia saído para buscar bebida, riu e disparou: “Gaúcho, você é muito chato”. Ele respondeu buscando uma coragem que só covardes possuem: “Me dá só um beijo”. Os lábios se tocaram, primeiro contidos, depois entregues. O rapaz voltou com duas latinhas, viu a cena e deu meia-volta. Era intenso demais para interromper. Ela, paulistana. Ele, gaúcho. Ali nascia o desfile.
A evolução foi imediata. Ele nunca foi mestre-sala, mas reconheceu sua porta-estandarte. As luzes se apagaram, já era domingo. Ela morava perto, tinha um quarto só para ela. Ele ficou. Fez até um cálculo prático, menos ônibus, mais tempo, mas o que parecia oportunismo virou sentimento. No apartamento, ela sugeriu conversar. Horas antes eram estranhos, suados e cansados. Antes do prazer da carne, ela quis expor a alma. Sentaram-se frente a frente na pequena mesa. A voz trêmula, os olhos marejados: “Tem certeza que quer ficar comigo?”. Ele ficou. Não houve namoro. Houve escolha. Houve entrega de almas.
Vieram dois dias intensos, sem roteiro, sem estratégia. Veio o quarto simples, o sofá-cama, o ventilador vencido pelo calor. Veio o veludo que queimava a pele. Amor também queima. Se houvesse jurados, os quesitos seriam altos: samba-enredo forte, harmonia rara, evolução sem tropeços, bateria marcando no peito. Veio até a primeira nota. Nove. Ele nunca passara de seis. Consagração.
Vieram as alegorias: casamento, filhos, família. Vieram os adereços: responsabilidades, planos, rotina. A escola cresceu. Mas todo desfile termina, seja campeã ou rebaixada. Todas enfrentam a mesma luta desigual contra o tempo. Todas chegam à dispersão. Ali o brilho se desfaz, as fantasias são desmontadas, as alegorias perdem o encanto, os adereços voltam às caixas. E só então começam os julgamentos. Quem foi melhor, quem errou, quem merecia mais nota. Mas a comissão verdadeira é invisível: tempo, escolhas, silêncios, orgulho, cansaço.
Um quarto de século depois, ele volta à mesma passarela. Ela não. Aprende que certezas mudam, que o amor muda de forma, que o tempo reescreve sambas. Daria outro enredo, só sobre o impacto do tempo nos casais, sobre promessas, permanências e despedidas. A tempestade que se abateu sobre Florianópolis não foi acaso. Era anúncio de novos ventos. E ele, agora, segura o leme da própria vida. Porque no fim toda escola enfrenta a dispersão — mas nem todos aprendem a navegar depois dela.
