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Redação

quarta-feira - 3 de junho de 2026

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03/06/2026

PRESSA NÃO TRANSFERE OS PRESOS

Antes de virar Cidade da Cultura, a Agronômica ainda é um complexo prisional. Florianópolis pode desejar um novo espaço cultural, com teatro, museu ampliado, áreas de convivência, restaurantes, espaços públicos e integração com o CIC. Mas nenhuma maquete apaga que cerca de 2,6 mil pessoas privadas de liberdade ainda estão ali, junto com servidores, famílias, rotinas de segurança e um sistema prisional que não se reorganiza no improviso.

A ideia de retirar a penitenciária de uma das áreas mais valorizadas da capital não é nova. O Complexo da Agronômica nasceu em outro tempo e em outra lógica urbana. O problema é a velocidade com que o destino cultural começa a aparecer como resposta pronta antes de o caminho prisional estar resolvido. A pergunta principal é para onde vai, como vai e em que condições será transferida toda a engrenagem que ainda funciona ali todos os dias.

O governo fala em novas unidades, milhares de vagas, transferência gradual e reorganização do sistema. Ao mesmo tempo, parte da demolição já começou, estudos de mercado avançam, a área entrou no radar de concessão à iniciativa privada por até 35 anos e o debate público ainda tenta acompanhar o tamanho da decisão. Quando um terreno público de 173 mil metros quadrados, em área nobre de Florianópolis, entra em rota de transformação, a cidade precisa discutir mais do que arquitetura, potencial turístico e promessa de convivência.

Cultura não pode servir como embalagem simpática para acelerar uma operação urbana mal explicada. Um novo complexo cultural pode ser importante, mas não pode nascer como atalho para empurrar o problema prisional para outro município, outra vizinhança ou outra gestão. Transferir presos não é trocar móveis de lugar. Envolve segurança, escolta, servidores, saúde, visitas, facções, logística, vagas reais e impacto direto nas cidades que receberão novas unidades.

A pressa também exige transparência sobre o modelo de concessão. Se a área continuará pública, qual será o grau de exploração privada? O que será gratuito? Quem define o uso dos espaços? Como ficam o CIC, o Masc, a vizinhança, a mobilidade e o patrimônio histórico? Uma Cidade da Cultura não pode virar um shopping de prestígio com discurso de parque público. Florianópolis já conhece projetos que chegam envelopados no futuro e depois cobram caro na permanência.

A cidade precisa de espaços públicos vivos. Também precisa desconfiar quando uma solução aparece pronta antes de o problema ter sido enfrentado por inteiro. O Complexo da Agronômica é uma engrenagem sensível de segurança pública, instalada em um território cobiçado e cercada por interesses legítimos e outros nem tanto.

Santa Catarina precisa provar que sabe desativar a penitenciária com responsabilidade antes de vender o brilho da Cidade da Cultura. Se a transferência for apressada, a cidade corre o risco de trocar um problema visível por vários problemas espalhados.

Florianópolis merece discutir o futuro da Agronômica. Mas merece discutir com menos pressa, mais dados e menos encantamento. Cultura não nasce bem quando começa como improviso prisional. E preso não desaparece só porque a maquete ficou bonita.

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