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segunda-feira - 2 de março de 2026

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02/03/2026

Precisamos falar sobre a epidemia silenciosa no litoral de SC

Não se trata de uma pesquisa científica, mas de uma constatação empírica: de cada 10 pessoas com que se conversa, sete enfrentam ou conhecem alguém que passou horas no “trono” recentemente.

A chamada “virose” do verão deixou de ser anedota para virar fenômeno social no litoral catarinense. E os números oficiais, ainda que sabidamente subnotificados, confirmam a percepção das ruas: já são mais de 40 mil casos registrados nas primeiras semanas do ano em Santa Catarina, com forte concentração nas cidades litorâneas como Itajaí, Florianópolis, Balneário Camboriú, Bombinhas e Itapema. Trata-se de um dos maiores picos de Doença Diarreica Aguda dos últimos verões.

O mais preocupante, porém, não é apenas a escala. É o silêncio. Não há uma campanha massiva de comunicação pública que alerte moradores e turistas sobre prevenção, sintomas e quando buscar atendimento. Enquanto equipes médicas se desdobram em centros de saúde e UPAs lotadas, autoridades municipais e estaduais parecem optar por uma estratégia de baixa exposição — como se falar abertamente sobre o problema pudesse arranhar a imagem turística do litoral. Saúde pública, entretanto, não combina com cálculo reputacional.

Some-se a isso um dado estrutural que ajuda a entender o cenário: relatório recente do IMA aponta que apenas 68% dos pontos monitorados estavam próprios para banho — o que significa que praticamente um terço apresentava impropriedade. Em outras palavras, a contaminação ambiental segue sendo uma variável concreta nessa equação, ao lado da manipulação inadequada de alimentos, superlotação sazonal e deficiências históricas de saneamento.

É imperativo encarar o problema como política de Estado, não como ruído de temporada. Se a cada verão o número cresce e a resposta segue tímida, a tendência é clara. Sem investimento consistente em saneamento, fiscalização e comunicação preventiva, o risco é que, dentro de uma década, a exceção não seja a praia imprópria — mas a praia livre de agentes como o norovírus e bactérias associadas à gastroenterite. O turismo agradece transparência. O silêncio, ao contrário, adoece.

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