Lembro como se fosse hoje. O ano era 1989. A primeira eleição direta para presidente depois de 21 anos de Ditadura Militar e da tal reabertura lenta, com Sarney, Plano Cruzado e coisa e tal. Eu tinha 19 anos, formado havia um ano pelo SENAI como ajustador mecânico, em Caxias do Sul. Já contratado por uma metalúrgica, era inspetor de controle de qualidade em uma ferramentaria — o setor onde nascem os moldes da produção em escala industrial.
Entre os candidatos, lá estava ele, apelidado por Leonel Brizola de “Sapo Barbudo”. O candidato do então Partido dos Trabalhadores, quem nos representava: Luiz Inácio Lula da Silva. O jingle “Lula Lá”, entoado por dezenas de artistas, era de arrepiar. O sonho de mudança era palpável.
Corte do editor da vida para 2026. Este ano completo 56 anos. E o candidato à presidência da República segue sendo Lula — um homem de 80 anos, que pode chegar aos 84 ao fim de um novo mandato.
Não entro na discussão rasa de culpa ou inocência. No Brasil político, isso virou quase detalhe.
O ponto é outro: 36 anos depois, o PT continua refém de um único nome.
Não é liderança. É dependência.
O partido atravessou mensalão, petrolão, impeachment, prisões — e não produziu um sucessor viável. Nem um. Dos antigos “companheiros”, sobrou quase ninguém. Dos atuais, falta coragem.
Ninguém diz o óbvio: Lula, chega.
E, no lugar de renovação, surgem distorções. A ideia de um 13º do Bolsa Família é o exemplo mais claro. Um programa criado para combater a extrema miséria vira instrumento de acomodação política. Como diriam no Rio Grande, é de fazer cair os butiás do bolso. Depois do pão, vem o circo.
Imagino a Dona Janja, entre o preparo de uma paca e outra, incentivando: “amor, vamos para mais uma eleição”. O efeito da chamada mosca azul — o poder — é inebriante. E ela se refestela.
Enquanto isso, o discurso segue preso a outra era. Porta de fábrica, companheiro, sindicato. O Brasil mudou — e muito. O trabalhador de hoje não está mais concentrado no portão; está disperso, conectado, fragmentado. Cabe no bolso, na tela, no tempo curto entre uma tarefa e outra.
Nada disso apaga os méritos. Houve avanço real em acesso à universidade e no combate à fome. Mas, como quase tudo que nasce de boa intenção no Brasil, parte se perde no caminho — e, quando se perde, custa caro.
Sempre fui um cidadão progressista. Defendo direitos, acesso, estrutura básica. Mas isso não é licença para populismo permanente.
E, para não cair na cegueira seletiva, também não há qualquer horizonte consistente na família Bolsonaro. Ali, falta substância para algo além do conflito.
Quem está no corre do dia a dia — boletos, comida na mesa — já está de saco cheio dessa polarização que tomou conta do país desde meados da década de 2010. Uma guerra estéril, barulhenta e improdutiva.
Pelo que se apresenta aí, diria que nem esquerda, nem direita empolgam.
Até porque, quem anda para o lado é caranguejo.
Está na hora de o Brasil olhar pra frente.
-14 de abril de 2026
