O alerta não é novo, mas ficou impossível de ignorar. O uso excessivo de telas — celular e tablet — já na primeira infância deixou de ser uma questão de estilo de criação e passou a ocupar espaço nas agendas de saúde pública, educação e até regulação.
Nesta segunda-feira (30), a partir das 14h, o tema chega ao Plenarinho da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), em Florianópolis, em um debate aberto ao público. A proposta é direta — reunir famílias, educadores e a comunidade para discutir os impactos do ambiente digital na infância e na juventude, dentro da Semana de Conscientização, Orientação, Prevenção e Combate à Dependência Tecnológica, instituída pela Lei Estadual nº 17.785/2019. O evento é gratuito e não exige inscrição prévia.
A Organização Mundial da Saúde recomenda zero exposição a telas para crianças menores de 2 anos e, entre 2 e 5 anos, no máximo 1 hora por dia, com supervisão. Na prática, o cenário está muito distante disso. Estudos internacionais mostram que crianças pequenas já passam, em média, entre 2 e 3 horas diárias em frente a telas, muitas vezes sem mediação de adultos.
As consequências começam cedo — e são mensuráveis.
Uma pesquisa publicada na JAMA Pediatrics apontou que maior tempo de tela em crianças de 2 a 3 anos está associado a pior desempenho em testes de desenvolvimento cognitivo aos 3 e 5 anos. Outro estudo longitudinal da University of Calgary identificou atrasos em linguagem e habilidades sociais diretamente relacionados ao aumento do tempo de exposição digital.
O impacto também é físico. A Sociedade Brasileira de Pediatria alerta que o uso prolongado de telas na infância está ligado a distúrbios do sono, sedentarismo, obesidade infantil e problemas posturais. A luz azul emitida por dispositivos, por exemplo, interfere na produção de melatonina, prejudicando a qualidade do sono — um fator crítico para o desenvolvimento neurológico.
Na saúde mental, o sinal também é de alerta. Revisões recentes associam o uso excessivo de telas — especialmente em redes sociais e conteúdos de estímulo rápido — a maior risco de ansiedade, irritabilidade, dificuldade de atenção e sintomas depressivos em adolescentes. A American Academy of Pediatrics já trata o tema como parte central da rotina pediátrica.
Mas talvez o dado mais sensível não esteja nos gráficos.
Especialistas têm apontado que a exposição precoce e intensa às telas pode comprometer algo menos mensurável, porém essencial: a capacidade de interação humana. Menos contato olho no olho, menos tempo de brincadeira livre, menos tolerância ao tédio — elementos fundamentais para a construção de autonomia, empatia e criatividade.
É nesse contexto que o debate promovido na Alesc ganha relevância. Especialistas de diferentes áreas devem abordar os efeitos do uso excessivo de telas na saúde mental, no desenvolvimento cognitivo e nas relações sociais, além de orientar pais e responsáveis sobre limites, proteção e uso consciente da tecnologia.
Porque, no fim, a pergunta não é sobre quanto tempo se passa ali — é sobre tudo o que deixa de ser vivido quando a infância começa a ser moldada por um algoritmo.
-27 de março de 2026
