Florianópolis é feita de morros, manguezais, dunas, restingas, praias, áreas de preservação e uma pressão urbana que nunca tira férias. Por isso, quando a Floram publica uma portaria suspendendo por 60 dias novos atos fiscalizatórios ambientais, ainda que sob a justificativa de reorganizar mais de 2 mil processos represados, o assunto não cabe na gaveta dos ajustes internos.
A prefeitura diz que a fiscalização não vai parar, porque Polícia Militar Ambiental e Guarda Municipal seguirão atuando, enquanto a Floram continuará atendendo casos urgentes. O problema está justamente nesse filtro. Quem define o que é urgente? Qual denúncia entra na fila? E como serão tratados casos que não parecem explosivos no primeiro minuto, mas produzem dano acumulado no território?
Desmatamento pequeno vira clareira. Ocupação irregular vira rua. Descarte de resíduo vira rotina. Supressão de vegetação sem resposta vira exemplo para o próximo fazer igual. Meio ambiente raramente colapsa de uma vez. Ele cede aos poucos, por omissão, atraso e tolerância administrativa.
É justo reconhecer que o passivo existe e precisa ser enfrentado. Processo parado não protege área nenhuma. Relatório atrasado também é problema ambiental. Mas a solução não pode parecer uma escolha entre fiscalizar o presente ou organizar o passado. Se a Floram chegou ao ponto de precisar frear a entrada de novas demandas para respirar, a pergunta é menos sobre a portaria e mais sobre a estrutura que permitiu esse gargalo.
Florianópolis precisa de fiscalização funcionando, processos andando, equipe suficiente, critério público e resposta técnica. Delegar a urgência para outros órgãos pode ajudar no socorro imediato, mas não substitui a inteligência ambiental de uma fundação que deveria estar na linha de frente da prevenção. Em uma cidade onde o território vale ouro, dois meses de baixa vigilância podem custar caro demais.
-20 de maio de 2026
