A Ponte Hercílio Luz passou maio sendo celebrada como símbolo de Florianópolis. Teve show internacional, missa, procissão, fogos, luzes, esporte, memória e orgulho. No domingo (31/05), porém, o encerramento das comemorações dos 100 anos mostrou que cidade grande não pode organizar evento grande com cálculo pequeno
A festa eletrônica gratuita começou às 13h, com DJs nacionais e internacionais, e tinha programação prevista até às 22h. O público apareceu em massa. O problema é que a multidão avançou para uma área que deveria estar protegida desde o início. O vão central da ponte, trecho sensível e proibido para concentração de pessoas, recebeu público em volume suficiente para acender o alerta da Guarda Municipal e provocar a suspensão do evento no fim da tarde. A justificativa foi direta: havia risco à segurança.
O episódio expôs falhas que precisam ser respondidas antes do próximo grande evento. A estimativa de público foi correta? O local comportava a estrutura e a circulação? Havia barreiras suficientes? O controle de acesso funcionou? A comunicação de risco foi clara? A cidade tinha efetivo para lidar, no mesmo dia, com o encerramento do centenário e o Ironman Brasil, outro evento de grande porte que exige operação especial?
A retomada da festa depois de ajustes de segurança não apaga o susto e não transforma improviso em sucesso. Se uma multidão consegue chegar a um espaço proibido, a falha já aconteceu. O fato de nada mais grave ter ocorrido deve ser recebido como alívio.
Florianópolis se consolida como uma cidade de turismo de eventos. Eles fortalecem a economia, atraem turistas e devolvem vida aos cartões-postais. Mas evento público não pode depender da sorte, da boa vontade da multidão ou da capacidade de corrigir problemas depois que eles aparecem. Planejamento é o que separa celebração de tragédia. Controle de fluxo, barreiras, rotas de fuga, efetivo, trânsito, comunicação e plano de contingência não aparecem nas fotos, mas sustentam tudo que aparece nelas. Quando o palco é uma ponte centenária, a organização precisa ser mais forte que a euforia.
Depois da repercussão, o prefeito Topázio Neto (PODE) publicou uma nota nas redes sociais reconhecendo o erro de planejamento e pedindo desculpas pelo ocorrido:
“Ontem, durante o evento Sekreta, na cabeceira da ponte, fomos vítimas do próprio sucesso: muito mais gente do que o esperado. Outros eventos do tipo deram certo naquele local, dessa vez não. É preciso reconhecer e pedir desculpa. Absorvo as críticas e fica o aprendizado para os próximos. Aproveito para agradecer e parabenizar a todos pelo mês do centenário da ponte. Lindos espetáculos, público ordeiro e homenagem à altura da nossa velha senhora.”
O reconhecimento é importante. Mas o aprendizado precisa virar método antes do próximo evento. A Ponte Hercílio Luz merece ser palco. A cidade merece celebrar. Mas Florianópolis precisa entender que evento grande exige leitura de público, gestão de risco e planejamento proporcional ao tamanho da festa. No fim, a ponte resistiu. O planejamento é que não pode continuar testando seus limites.
-1 de junho de 2026
