Florianópolis começa a discutir, com algum atraso, uma ideia que cidades inteligentes entenderam há muito tempo: o centro não é corredor de passagem. É lugar de permanência.
O projeto apresentado para a região central, inspirado no urbanismo dinamarquês, parte dessa inversão simples. Em vez de desenhar a cidade para a passagem rápida dos carros, propõe voltar a tratar o centro como lugar de convivência. Parece óbvio. E talvez esse seja o maior elogio possível ao estudo. Ele devolve obviedades que Florianópolis foi desaprendendo.
Quando há espaço para sentar, conversar e circular com calma, a cidade responde.
O exemplo está na Felipe Schmidt, na altura das Americanas. Ali, quando o espaço foi devolvido ao pedestre, o resultado se tornou visível. As pessoas sentam, conversam, esperam alguém e fazem o que toda cidade viva precisa permitir. Permanecer. Quando a rua volta a ser usada por gente comum, ela fica mais interessante, mais sociável e até mais segura.
O Mercado Público, a Esteves Júnior, a ligação com a Beira-Mar e outros trechos podem ganhar esse novo papel, desde que a cidade entenda que revitalizar não é trocar piso e poste. É mudar prioridades.
Um centro mais caminhável e mais verde não é só para turista tirar foto no fim da tarde. É uma decisão sobre saúde urbana, comércio, convivência e identidade. Quando se cria um espaço que convida a ficar, o café vende mais, a livraria respira melhor, o morador volta a olhar para a rua e o visitante planeja voltar.
Agora vem a parte menos dinamarquesa e mais brasileira da história. O projeto foi planejado, apresentado e entregue. É aí que muitos planos urbanos, brilhantes no PowerPoint, começam a desidratar.
Ainda assim, vale registrar o acerto antes que o cinismo chegue primeiro. Se der certo, Florianópolis ganha um centro menos apressado e mais humano.
Foto: Gehl Architects, Divulgação
-19 de março de 2026
