Antes de virar prato, festa, manchete ou disputa por cota, a tainha é espera. É olho no mar, pé na areia e silêncio de rancho, quebrado só pelo vento, pela conversa curta e pelo chamado de quem aprendeu a ler o movimento da água como quem lê o tempo. A safra de 2026 começou com um dado que ajuda a empurrar essa esperança. Dos 56 pontos analisados nas 26 praias da Rota da Tainha, 49 foram considerados próprios para banho. São 87,5% dos pontos com boa qualidade e, entre os sete impróprios, apenas um fica no mar.
A tainha atravessa Florianópolis muito antes de a cidade se chamar assim. Povos originários já conheciam o ciclo do peixe, dominavam o cerco e faziam da pesca um saber coletivo. Depois vieram os açorianos, redes mais resistentes, embarcações maiores e uma organização que se sofisticou sem perder o essencial. Na pesca da tainha, ninguém faz nada sozinho. Tem o olheiro, tem quem puxa, tem quem espera, tem quem ajuda a repartir.
O que sustenta a safra é a comunidade.
Também por isso a tainha nunca foi apenas economia, embora sempre tenha sido. Ela ajudou a abastecer mesas, a mover o Mercado Público, a gerar renda e a manter de pé uma cadeia inteira que passa pelo rancho, pela cozinha e pela memória. Está no pirão, no peixe assado, na brasa e no ensopado. Está na cultura material da cidade, mas também no jeito como Florianópolis aprendeu a se reconhecer.
A modernização apertou esse mundo. Vieram a urbanização, a pressão sobre os estoques, a redução das áreas de pesca e a transformação de parte da tradição em produto turístico. Mesmo assim, os ranchos seguem de pé em lugares como Pântano do Sul, Armação, Barra da Lagoa, Ingleses e Santo Antônio de Lisboa. Seguem porque ainda há gente disposta a acordar cedo, ensinar o filho, repetir o gesto e defender um modo de vida que não cabe só no discurso da nostalgia.
A safra da tainha continua sendo um dos poucos momentos em que Florianópolis olha para si e enxerga a própria origem. Nos primeiros lanços, a cidade vê herança e permanência. E talvez seja isso que torne a tainha tão importante por aqui. Ela alimenta, sustenta e, todo ano, lembra de onde esta Ilha veio.
Foto: Julio Cavalheiro
