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quarta-feira - 10 de junho de 2026

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10/06/2026

EL NIÑO CHEGA ANTES DA OBRA

Florianópolis resolveu olhar para as enchentes com uma ideia correta e um relógio atrasado no pulso. A cidade oficializou a adoção do conceito de cidade esponja, criado na China pelo arquiteto e paisagista Kongjian Yu nos anos 2000, para fazer o espaço urbano absorver melhor a água da chuva. A proposta fala em calçadas e estacionamentos com revestimentos porosos, jardins de chuva, telhados verdes, valas de infiltração e áreas capazes de receber temporariamente grandes volumes de água. No papel, é avanço. No calendário, é atraso.

A medida chega às vésperas de um El Niño que já acendeu o alerta em Santa Catarina. A Defesa Civil aponta 90% de chance de formação do fenômeno neste inverno, com tendência de chuvas mais frequentes e sistemas de instabilidade atuando sobre o estado. O governo estadual decretou alerta climático por 180 dias, com regras para emergências, pré-posicionamento de equipes e medidas preparatórias.

Diante desse cenário, Florianópolis precisava estar discutindo cidade esponja ontem. A Lei nº 11.594 cria diretrizes para que futuras obras e projetos urbanos incorporem soluções de drenagem mais inteligentes. É um avanço, mas está mais perto de uma intenção do que uma resposta para os próximos meses. Caberá ao Executivo avaliar as medidas junto ao Plano Diretor e definir o que será implementado ao longo dos próximos anos.

A chuva, no entanto, está marcada para antes.

A cidade precisa pensar solo, vegetação, infiltração, áreas alagáveis e natureza urbana como infraestrutura. Cidades esponja exigem planejamento, obra, manutenção, orçamento, fiscalização e mudança real no modo como Florianópolis ocupa morros, baixadas, beiras de rio, manguezais e encostas.

O risco é transformar uma boa referência internacional em curativo local. Um band-aid verde sobre um problema que envolve impermeabilização do solo, ocupações em áreas sensíveis, drenagem insuficiente, rios pressionados, ruas que alagam sempre nos mesmos pontos e uma cidade que conhece muito bem os próprios gargalos. Revestimento poroso, jardim de chuva e telhado verde ajudam. Mas é pouco quando aparece como promessa futura diante de uma temporada de chuva que já entrou no radar.

Florianópolis precisa de soluções de longo prazo, mas também precisa de resposta para agora. Precisa saber quais bairros têm maior risco, quais obras emergenciais serão feitas, quais equipes estarão de prontidão, quais sistemas de drenagem precisam ser limpos, quais pontos serão monitorados e como a população será avisada antes da água entrar pela porta.

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