A lona protege do que ainda pode cair do céu. A telha tenta devolver o teto.
Depois de um fim de semana em que milhares de famílias correram atrás de uma cobertura provisória para impedir que a chuva continuasse entrando em casa, Florianópolis começa nesta terça-feira (1º/09) uma etapa diferente da emergência.
Às 14h, começa a distribuição de telhas no Centro de Eventos Luiz Henrique da Silveira, em Canasvieiras. Cerca de 15 mil peças já chegaram ao município e a expectativa da prefeitura é alcançar pelo menos 45 mil nos próximos dias.
Parece muito. E é.
Até que o número seja dividido entre milhares de famílias e telhados que não sofreram o mesmo dano.
Uma casa pode precisar substituir algumas peças. Outra pode ter perdido praticamente toda a cobertura. Há quem consiga colocar as telhas no carro e voltar para casa. Há quem não tenha carro, quem more sozinho, quem seja idoso ou simplesmente não tenha condições físicas de carregar o material.
É aí que a reconstrução deixa de ser uma conta de estoque e vira um problema de logística.
Nesta terça-feira, a primeira etapa atende principalmente quem consegue retirar e transportar as telhas por conta própria. Cada morador cadastrado terá um volume definido conforme a necessidade informada. A partir de quarta-feira (2), a distribuição será ampliada para pontos no Norte da Ilha e no Centro e começam as entregas descentralizadas.
Caminhões do município deverão percorrer as áreas mais atingidas. Nos casos considerados prioritários, como idosos e pessoas com deficiência, a previsão é levar o material até a residência.
É uma diferença importante. Distribuir igualmente nem sempre significa atender de forma justa.
Quem perdeu mais precisa de mais. Quem consegue buscar não pode ter exatamente a mesma dificuldade de acesso de quem depende do poder público para fazer a telha chegar até a porta.
O desafio dos próximos dias será descobrir se o cadastro consegue enxergar essas diferenças.
A cidade ainda está longe da normalidade. Das 27 escolas e creches municipais que tiveram o atendimento suspenso na segunda-feira, 21 reabriram nesta terça (1º/09). Seis permanecem fechadas porque ainda precisam de reparos elétricos ou intervenções relacionadas a infiltrações e alagamentos.
Também começou outra disputa menos visível.
O Procon passou a fiscalizar preços de telhas, lonas, madeira, cimento e outros materiais usados nos reparos. Estabelecimentos notificados terão de apresentar os valores praticados nos 15 dias anteriores e justificar eventuais aumentos.
É uma fiscalização necessária porque a urgência de um consumidor não pode virar margem extra de lucro sem justificativa.
Depois de uma tempestade, a resposta pública costuma ser medida em números grandes. Quinze mil telhas recebidas. Quarenta e cinco mil previstas. Milhares de atendimentos. Mas nenhuma dessas estatísticas reconstrói uma casa sozinha.
O resultado estará nos números menores: quantas famílias receberam aquilo de que realmente precisavam, quanto tempo esperaram e quantas conseguiram finalmente retirar o balde do meio da sala.
-2 de setembro de 2026
