Florianópolis virou uma cidade cara para morar, comer e permanecer. O aluguel médio residencial chegou a R$ 6.535 por mês em levantamento da Loft, com bairros acima de R$ 10 mil, como a Lagoa da Conceição, e regiões do Sul da Ilha encostando nessa faixa. Mesmo áreas mais acessíveis, como Capoeiras e Alto Ribeirão, aparecem na casa dos R$ 3 mil.
Na cesta básica, a conta também pesa. A capital figura de forma recorrente entre as mais caras do Brasil, com valores médios entre R$ 824,35 e R$ 831,92. A pergunta, então, deixa de ser apenas econômica e passa a ser urbana: o que a cidade devolve para quem paga tão caro para viver nela?
Essa pergunta fica ainda mais incômoda quando entra a segurança.
Florianópolis lidera o ranking de furtos e roubos em Santa Catarina, com cerca de 14,9 mil ocorrências por ano e média de 41 furtos por dia. O criminoso entra na loja, no condomínio, na garagem, na fachada, na marquise, no caixa e no bicicletário. Leva mercadoria, dinheiro, moto, fiação, peça de metal e, junto, a confiança de circular pela própria cidade.
Centro, Ingleses, Canasvieiras, Capoeiras e Trindade aparecem entre as áreas de maior risco, mas a sensação já escapou do mapa. A insegurança aprendeu a atravessar bairros, horários e perfis sociais. Não mora apenas na estatística policial. Mora no comerciante que dorme esperando o alarme tocar, no morador que instala câmera, no trabalhador que evita uma rua, no ciclista que pensa duas vezes antes de prender a bicicleta.
É difícil convencer o morador de que vive em uma cidade de alto padrão quando ele paga aluguel de cidade turística, supermercado de capital cara e ainda precisa bancar câmera, alarme, grade e seguro para proteger a rotina. A cidade que se vende como destino desejado começa a parecer, para quem mora nela, um lugar onde a beleza cobra caro e a segurança entrega pouco.
Segurança pública envolve Estado, município, polícia, investigação, Justiça, iluminação, urbanismo e participação comunitária. Não resolve o problema fingir que tudo depende apenas da prefeitura. Mas a gestão municipal precisa aceitar que sensação de segurança é parte da qualidade de vida que Florianópolis promete. Não basta investir na imagem de cidade inovadora, turística, limpa para o visitante e charmosa para o mercado imobiliário enquanto moradores e comerciantes sentem que a presença pública chega sempre depois da porta arrombada.
Câmeras com inteligência artificial, patrulhamento reforçado e boletim de ocorrência ajudam, mas não bastam se a cidade continuar transferindo a responsabilidade para cada morador. Registre o boletim. Instale a câmera. Reforce a grade. Contrate alarme. Esconda o celular. Não deixe nada no carro. Evite tal rua. Volte mais cedo. Esse roteiro pode até ser manual de sobrevivência urbana. Não é política pública.
Florianópolis precisa decidir se quer ser apenas vitrine ou cidade habitável. Vitrine atrai turista, investidor, anúncio de aluguel alto e fotografia bonita. Mas quem mora precisa de outra coisa. Precisa atravessar a rua sem medo, abrir o comércio sem esperar o alarme tocar, deixar a bicicleta no bicicletário, voltar para casa depois do trabalho e sentir que o preço pago para viver aqui não compra só paisagem.
No fim, a conta não fecha. Aluguel de mais de R$ 6 mil, cesta básica entre as mais caras do país e insegurança como parte da rotina formam uma combinação difícil de defender. Florianópolis precisa responder a uma pergunta simples: vale pagar tanto para viver em uma cidade que parece mais preocupada em receber bem quem passa do que em proteger quem fica?
-10 de julho de 2026
