Florianópolis perdeu nesta segunda-feira (06/07) uma liderança que ajudou a cidade a entender que comunidade também se constrói com fé, água, luz, documento e porta aberta. Claudete Régis Machado, a Dona Claudete ou Dona Dete, morreu aos 84 anos e deixou no Morro do Mocotó uma trajetória que não cabe apenas na palavra luto.
Mãe de santo do Centro de Umbanda Tia Maria de Minas, uma das referências mais antigas da Umbanda na região, Dona Dete acolheu gerações em casa, no terreiro e na vida cotidiana do morro. Mas sua presença foi além da espiritualidade. Nos anos 1970, mobilizou moradores pela construção de um poço que levou água potável ao alto da comunidade. Lutou por luz, por moradia regularizada e por direitos que hoje parecem básicos, mas que naquele tempo ainda precisavam ser cavados, quase literalmente, com as próprias mãos.
Sua casa virou lugar de escuta, benzimento, orientação e acolhimento. Sua atuação ajudou famílias a conquistarem acesso à água encanada, energia elétrica e documentação das moradias. Sua memória preservou relatos de uma Florianópolis em que o morro ainda era mato, infância, brincadeira, disputa por direitos e pertencimento.
A trajetória de Dona Dete conta uma parte importante de Florianópolis que nem sempre aparece nos cartões-postais. A cidade que desce para a praia também sobe morro. E, no alto do Mocotó, a história foi feita por gente que precisou transformar ausência em organização comunitária. Onde faltava estrutura, surgia mutirão. Onde faltava Estado, aparecia liderança.
Em 2023, ao contar parte dessa trajetória em estudo acadêmico sobre o Morro do Mocotó, Dona Dete ajudou a registrar aquilo que muitas cidades perdem quando deixam suas lideranças populares desaparecerem sem escuta. Ela era arquivo vivo. Guardava lembranças, nomes, caminhos, dores e conquistas.
Sua morte deixa um vazio para a família, os amigos, a comunidade religiosa e os moradores que a reconheceram como referência de cuidado e perseverança. Mas também deixa uma tarefa para Florianópolis. Honrar Dona Dete é lembrar que a cidade tem uma dívida histórica com suas comunidades, com suas lideranças populares, com as religiões e com quem fez política pública antes mesmo de ter gabinete ou crachá.
Dona Dete abriu caminhos onde faltava estrutura. No Mocotó, a água que ela ajudou a buscar continua correndo. Que o exemplo também continue.
-7 de julho de 2026
