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Redação

quinta-feira - 18 de junho de 2026

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18/06/2026

A CIDADE FECHA A PORTA

Encerrar um contrato pode ser decisão administrativa. Encerrar um acolhimento nunca é só isso. A Prefeitura de Florianópolis confirmou que não vai renovar, após 30 de junho, o vínculo com o hotel social criado em 2021 para abrigar pessoas em situação de vulnerabilidade, vítimas de problemas sociais, conflitos familiares ou calamidades. No papel, é o fim de um modelo. Na vida real, é a pergunta mais difícil da política social: para onde vão as pessoas quando a porta fecha?

O equipamento acumulou polêmicas, custos questionados e episódios graves ao longo dos últimos anos. Portanto, é legítimo discutir se o formato funcionou, custou caro demais, teve controle suficiente, garantiu segurança e entregou o que prometia. Mas existe uma diferença entre revisar uma política pública e desmontar sua estrutura.

Hoje, segundo a própria prefeitura, ainda há oito núcleos familiares no local, acompanhados por equipes técnicas em um processo gradual e individualizado de desacolhimento. A intenção é encaminhar quem cumprir critérios para um auxílio financeiro temporário de aluguel, além de apoio para trabalho, documentação e acesso a serviços. Isso precisa virar aluguel que caiba no bolso, renda possível, endereço real, escola perto, saúde disponível, assistência presente e acompanhamento que não desapareça depois da mudança.

A palavra “desacolhimento” suaviza um processo que, sem garantias concretas de continuidade e proteção, corre o risco de se transformar em abandono, dispersão e invisibilidade. Uma família fora do hotel social não deixa de ser vulnerável por ter mudado de endereço. Apenas sai do campo de visão mais imediato do poder público.

Esse é o risco de Florianópolis: trocar um problema concentrado, incômodo e fácil de apontar por várias fragilidades espalhadas pela cidade. O hotel social podia falhar. E, se falhou, precisava mesmo ser revisto. Mas a vulnerabilidade que levou essas famílias até lá não termina junto com a vigência contratual.

A vista grossa do poder público costuma funcionar assim: primeiro tolera o improviso por tempo demais; depois, quando o improviso cansa, encerra a estrutura sem explicar com clareza qual política permanente ficará no lugar. Política social exige transição, transparência, meta, orçamento, fiscalização e responsabilidade sobre o dia seguinte.

Se o hotel social foi caro, que a conta seja aberta. Se houve falhas, que sejam apontadas. Se o modelo era ruim, que outro melhor apareça com nome, prazo, equipe e recurso. O que não serve é vender o fechamento como solução em si.

Fechar porta é fácil. Difícil é garantir que ninguém durma do lado de fora.

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