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sábado - 29 de agosto de 2026

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29/08/2026

A AULA QUE NÃO TERMINOU

Algumas histórias envelhecem. Outras apenas esperam alguns anos para fazer a mesma pergunta de novo.

Nesta semana, voltou a circular a história da professora aposentada Zenita Chamone, que transformou a garagem de casa, em Coqueiros, numa pequena sala de alfabetização para idosos.

O registro mais detalhado disponível é de 2016. Naquela época, Zenita já mantinha a iniciativa havia cerca de duas décadas.

Uma vez por semana, antes dos cadernos, havia café e conversa. Depois chegavam as letras, as contas e conquistas que parecem pequenas apenas para quem nunca precisou pedir ajuda para ler uma frase ou conferir um troco.

Vanilda começou a frequentar as aulas aos 55 anos e aprendeu a ler e escrever. Olívia, então com 86, celebrava uma independência bastante concreta: conseguir fazer as próprias contas sem depender de outra pessoa.

Não há informação pública recente suficiente para afirmar que a garagem continue funcionando hoje da mesma forma.

Talvez isso torne a história ainda mais interessante.

Dez anos depois daquela reportagem, o que permanece não é apenas a imagem bonita de uma professora aposentada que decidiu continuar ensinando. Fica também a pergunta sobre quantas pessoas ainda chegam à velhice carregando uma oportunidade que nunca tiveram.

Seria injusto dizer que Florianópolis não oferece alternativas públicas. A rede municipal mantém a Educação de Jovens, Adultos e Idosos, com matrículas abertas durante todo o ano e atendimento em diferentes regiões da cidade. Há também uma parceria com a UFSC voltada às séries iniciais para pessoas com 50 anos ou mais.

A questão, portanto, é descobrir quem ainda não chegou até aquilo que existe.

Porque uma vaga aberta não alfabetiza ninguém se a pessoa não sabe que pode ocupá-la, não consegue chegar ao local, tem vergonha de voltar à sala de aula ou passou tanto tempo acreditando que estudar já não era coisa para sua idade.

É aí que histórias como a de Zenita deixam de ser apenas inspiradoras.

Uma garagem transformada em escola mostra o poder que uma pessoa tem para mudar a vida de outra. Mas também lembra que direitos básicos não deveriam depender exclusivamente da sorte de morar perto de alguém disposto a abrir o portão de casa.

A solidariedade pode alcançar quem o Estado ainda não alcançou.

Zenita poderia ter entendido a aposentadoria como o ponto final de uma carreira. Preferiu usar aquilo que sabia para continuar abrindo portas.

A melhor homenagem não é transformar sua garagem em lenda.

É fazer com que Florianópolis encontre quem ainda espera pela primeira aula antes que essa espera chegue aos 80 anos.

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