Cinquenta pessoas cabem num ônibus. Nas redes sociais, às vezes viram uma invasão.
Nos últimos dias, publicações em português e espanhol espalharam a ideia de que Santa Catarina estaria vivendo uma chegada em massa de marroquinos. A narrativa atravessou fronteiras, chegou a páginas argentinas e ganhou imagens capazes de produzir exatamente a sensação que a palavra escolhida pretendia provocar: multidões.
O problema é que parte dessas imagens nem sequer era daqui.
Fotos da crise migratória de Ceuta, território espanhol no Norte da África, foram usadas em publicações sobre Santa Catarina. O cenário de milhares de pessoas tentando chegar à Espanha ajudou a ilustrar uma realidade muito diferente da encontrada em Florianópolis.
Aqui, a Missão Scalabrini prestou assistência a cerca de 50 marroquinos nos últimos meses.
O número merece atenção porque toda chegada de migrantes produz demandas concretas. Quem muda de país precisa regularizar documentos, encontrar trabalho, entender uma nova língua, procurar moradia e aprender como funcionam serviços que para quem nasceu aqui já parecem óbvios.
Mas atenção não é sinônimo de alarme.
Segundo dados do ObMigra e Conare, até julho, Santa Catarina havia registrado 3.059 pedidos de refúgio em 2026. Desses, 57 foram feitos por marroquinos, o equivalente a 1,86% do total.
Há mais pedidos de argentinos, 61. Entre os cubanos, foram 1.707. Haitianos somaram 543 e venezuelanos, 227.
Quando os números aparecem inteiros, a palavra “invasão” começa a ficar grande demais para aquilo que pretende descrever.
Isso não significa que imigração não deva ser discutida.
Uma cidade pode e deve perguntar se possui estrutura de acolhimento suficiente, como os recém-chegados entram no mercado de trabalho, onde conseguem morar, como ocorre a regularização documental e de que forma evitar exploração, informalidade e conflitos de integração.
Essas são perguntas de política pública.
O problema começa quando a pergunta é respondida antes de ser feita.
Transformar um grupo de estrangeiros numa ameaça coletiva porque fala outra língua, vem de outro continente ou procura assistência social não ajuda a cidade a compreender qualquer impacto real da imigração.
Ajuda apenas a produzir medo.
A própria Missão Scalabrini existe para lidar com questões bastante práticas. O trabalho inclui orientação documental, encaminhamentos, apoio social e serviços voltados à integração de migrantes e refugiados. Atender alguém que chega ao país é justamente o tipo de estrutura que uma cidade com população estrangeira precisa ter.
Também é legítimo acompanhar os números daqui para frente.
Se as chegadas crescerem significativamente, os dados mostrarão. Se houver pressão específica sobre algum serviço público, isso poderá ser medido. Se surgirem dificuldades de integração, precisam ser enfrentadas.
Mas nenhuma dessas possibilidades futuras transforma 57 pedidos de refúgio em uma invasão presente.
Em tempos em que uma fotografia atravessa o oceano em segundos e chega ao celular antes que alguém pergunte onde ela foi feita, talvez conferir a escala seja uma das formas mais simples de jornalismo.
E também uma maneira de impedir que o medo chegue antes das pessoas.
