Nem toda política pública chega em forma de obra ou inauguração. Às vezes, chega em uma caixa de remédio e numa coleira repelente.
Florianópolis oferece gratuitamente o tratamento contra a Leishmaniose Visceral Canina para cães de famílias com renda de até três salários mínimos inscritas no CadÚnico. A medicação também é custeada para os animais acolhidos no canil municipal.
Segundo a prefeitura, a capital é a primeira cidade brasileira a bancar esse tipo de tratamento. Se a gestão pública deve ser cobrada quando falha, também precisa ser reconhecida quando encontra uma resposta que outras cidades ainda não oferecem.
A mudança é importante principalmente porque o diagnóstico não precisa significar o fim da vida do animal.
A Leishmaniose Visceral Canina não tem cura parasitológica, mas pode ser controlada. Com tratamento, acompanhamento veterinário e medidas de proteção, cães diagnosticados podem apresentar melhora clínica e continuar convivendo com suas famílias.
Neste sábado (29/08), essa política ganha rostos. O Hospital Veterinário Municipal realiza uma feira para encontrar famílias para 12 cães com leishmaniose que estão no canil municipal. Quem adotar terá acesso ao tratamento medicamentoso e ao acompanhamento veterinário.
É também uma forma de enfrentar um preconceito que ainda acompanha o diagnóstico: a ideia de que a eutanásia é necessariamente o único caminho.
Mas o cuidado exige responsabilidade.
Tratar o animal não significa eliminar o parasito. Mesmo depois da melhora clínica, o cão pode continuar como reservatório da doença e infectar o mosquito-palha, responsável pela transmissão. Por isso, medicação precisa caminhar com acompanhamento permanente, coleira repelente, controle do vetor e orientação às famílias.
Esse é o ponto que transforma uma boa iniciativa de bem-estar animal em uma política responsável de saúde única.
Não basta entregar o remédio. Será importante acompanhar quantos animais permanecem em tratamento, quantos são adotados, como ocorre o monitoramento e se as famílias conseguem manter os cuidados necessários ao longo do tempo.
Existe também uma escolha pública importante por trás da medida.
Para uma família com poucos recursos, o custo de tratar continuamente um animal pode transformar uma alternativa médica em uma possibilidade apenas no papel. Ao assumir parte desse custo, o município evita que renda seja a única fronteira entre o diagnóstico e o cuidado.
Florianópolis costuma ser cobrada por aquilo que ainda não fez.
Neste caso, merece crédito pelo que decidiu fazer.
