A instalação de postes de iluminação na faixa de areia do Campeche ganhou novo capítulo e reforçou a pergunta que Florianópolis deveria ter respondido antes de qualquer equipamento fincado na praia. A Quantum Engenharia interrompeu a obra após protestos de moradores e informou que está em contato com a prefeitura para providenciar licenças e procedimentos necessários. O plano previa 35 postes na região da Lomba do Sabão, uma das áreas mais frequentadas por jovens no Campeche. Treze já foram instalados desde sábado (20/06), mas ainda não foram ligados à rede de energia.
Moradores questionam os impactos sobre a restinga, as dunas e a fauna local, além da ausência de autorizações em uma área de preservação permanente. A Associação dos Moradores do Campeche entrou na Justiça Federal contra a instalação, e o Judiciário intimou a Prefeitura de Florianópolis, a Floram, a Advocacia-Geral da União e o Ibama a se manifestarem em até 72 horas. O Ministério Público Federal também atua no caso e pediu à Floram que embargasse a obra caso não exista licença ambiental. A Secretaria do Patrimônio da União informou que não há registro de pedido de autorização para instalação de iluminação na faixa de areia.
Ou seja, a cidade instalou primeiro, parou depois e agora tenta organizar a explicação no caminho. Por que iluminar a areia, em área sensível, antes de apresentar estudo ambiental, avaliação de impacto sobre a fauna, justificativa técnica, necessidade real, horário de uso, alternativas possíveis e autorização dos órgãos competentes?
Se a justificativa é segurança, a discussão precisa sair do reflexo automático de colocar poste onde há escuridão. Há demanda real de permanência noturna naquele trecho? A iluminação resolve o problema ou apenas cria sensação de controle dentro de um ecossistema frágil? Outros meios poderiam proteger moradores e frequentadores sem alterar a faixa de areia? Segurança também exige estudo.
Especialistas alertam que a iluminação artificial noturna em ambientes costeiros pode interferir na vegetação de restinga, nas dunas frontais e nos padrões de deslocamento, alimentação e reprodução de aves migratórias. A região também abriga fauna residente, incluindo aves, mamíferos, crustáceos, moluscos e insetos.
A falta de cuidado com a fauna aparece no método. Quando uma intervenção chega antes do diagnóstico, a gestão pública trata o ambiente como cenário, não como sistema vivo. A praia vira superfície disponível. A restinga vira detalhe. E a licença, que deveria orientar a decisão, passa a parecer uma etapa atrasada da burocracia.
O Campeche não precisa escolher entre segurança e ambiente. Essa falsa disputa só interessa a quem prefere obra sem análise. A praia precisa de gestão que estude antes de instalar, dialogue antes de surpreender, respeite os órgãos ambientais e entenda que iluminação pública em área sensível exige mais do que boa intenção e equipamento fincado no chão.
Luz demais também pode cegar a gestão.
-29 de junho de 2026
