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Redação

terça-feira - 9 de junho de 2026

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09/06/2026

A TAINHA NÃO CABE EM PLANILHA

A tainha chega a Florianópolis pelo grito do vigia, pelo rancho aberto, pela rede esticada na areia e pela correria organizada de quem aprendeu a ler o mar antes mesmo de aprender a ler papel. É peixe, renda, calendário, encontro, cozinha, memória e pertencimento. Por isso, a decisão do Governo Federal de encerrar a pesca da tainha no arrasto de praia após a modalidade atingir 90% da cota para 2026 não pode ser tratada como simples ato administrativo.

Cota existe por uma razão. Sem controle, não há estoque. Sem estoque, não há safra. E sem safra, a tradição vira lembrança bonita em placa turística. A preservação precisa fazer parte da conversa. O problema é quando a conversa termina antes de começar e uma prática centenária, passada de geração em geração em praias como Pântano do Sul, Campeche, Barra da Lagoa, Santinho, Ingleses, Moçambique, Praia Brava e Lagoinha do Norte, entra na planilha pública como se fosse apenas tonelada capturada.

O caso fica ainda mais incômodo porque 2026 vinha sendo tratada como safra histórica. O mar trouxe fartura, cardumes generosos e grandes capturas no litoral catarinense. E foi justamente essa abundância que acelerou o esgotamento da cota e antecipou o fechamento de uma das modalidades mais simbólicas da pesca artesanal da Ilha. O paradoxo está montado: o ano em que a tainha mais apareceu virou o ano em que o arrasto de praia foi mandado recolher mais cedo.

A prefeitura reagiu dizendo que a medida afeta a cultura, a economia e cerca de 5 mil famílias ligadas à pesca artesanal na capital. E afeta mesmo. A pesca da tainha movimenta comércio, gastronomia e turismo, mas sua importância mais profunda está no que ela preserva. O arrasto de praia é uma aula pública de coletividade. O olheiro avista, o pescador corre, a comunidade ajuda, o turista observa e a cidade lembra que existe uma Florianópolis anterior ao folder imobiliário.

O desafio é construir uma regulação que respeite o ciclo do peixe sem atropelar o ciclo da cultura. E, para isso, o conhecimento de quem vive do mar não pode entrar na discussão só depois que a decisão já desceu pronta de Brasília para a areia.

Florianópolis precisa de pesca sustentável. Mas também precisa de regra com escuta, contexto e inteligência territorial. Porque a tainha pode até caber em uma cota. O arrasto de praia, como cultura viva, não cabe na frieza de uma planilha.

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