Comercial

Redação

quarta-feira - 3 de junho de 2026

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03/06/2026

TARIFA NÃO É AMEAÇA DISTANTE

Donald Trump nunca teve muita paciência para diplomacia tradicional. Prefere transformar negociação em pressão, pressão em ameaça e ameaça em manchete. O problema é que, quando a maior economia do mundo resolve usar tarifa como ferramenta política para quase tudo, a conta não fica em Washington. Ela atravessa fronteiras e chega até lugares que parecem distantes da discussão, inclusive Santa Catarina.

Nos últimos dias, os Estados Unidos colocaram o Brasil na mira de novas tarifas. Primeiro, com uma sobretaxa de 25% baseada em uma investigação sobre temas que vão do Pix ao comércio digital, passando por propriedade intelectual, etanol e desmatamento. Depois, com uma segunda proposta ligada ao combate ao trabalho forçado nas cadeias produtivas. São movimentos que produzem incerteza.

É verdade que Trump costuma usar tarifas como instrumento de negociação. Ameaça primeiro, conversa depois. O problema é que essa estratégia funciona justamente porque gera insegurança. Empresas adiam decisões, contratos ficam em compasso de espera e investidores passam a olhar o risco antes da oportunidade.

Para Santa Catarina, o tema está longe de ser abstrato. Os Estados Unidos são um dos principais destinos das exportações catarinenses. Máquinas, equipamentos, produtos industrializados, madeira, móveis e diversos itens da pauta exportadora dependem desse mercado.

A FIESC avalia que a tarifa de 25% seria prejudicial ao estado e alerta que apenas uma parte das vendas catarinenses aos americanos ficaria fora do alcance das novas cobranças, a depender das exceções aplicadas. Ou seja, o risco passa pela indústria, pelo emprego, pela competitividade e pela capacidade de empresas catarinenses manterem espaço em um mercado estratégico.

Há também um desconforto que o Brasil não deveria ignorar. Ser citado em discussões sobre trabalho forçado, transparência de cadeias produtivas e práticas comerciais é uma questão de reputação. E reputação virou ativo econômico. Quem exporta precisa provar origem, rastreabilidade e conformidade com regras cada vez mais exigentes.

Mas existe um outro problema. A velocidade americana costuma ser muito maior do que a velocidade brasileira. Enquanto Trump transforma uma coletiva em crise internacional, Brasília frequentemente demora semanas para construir uma resposta coordenada. O país ainda reage melhor ao problema do que se antecipa a ele.

E isso importa para Santa Catarina. O estado tem uma economia industrializada e integrada ao comércio exterior. Florianópolis, que gosta de se apresentar como polo de tecnologia, inovação e serviços globais, também depende de um ambiente internacional previsível para atrair investimentos e gerar negócios. Quando a insegurança comercial cresce, ninguém fica completamente isolado.

O Brasil precisa contestar o que considerar injusto, mas também precisa responder rápido.

No fim, a tarifa nasce em Washington, passa por Brasília e pode terminar na linha de produção de uma fábrica catarinense. Quando a política internacional começa a interferir na economia real, a distância entre a Casa Branca e Santa Catarina fica muito menor do que mostra o mapa.

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