Comercial

Redação

segunda-feira - 25 de maio de 2026

Comercial

Redação

25/05/2026

O LIXO NA PRAIA NÃO NASCE NA AREIA

A Praia do Jardim Atlântico acordou no sábado (23/05) com uma conta que não deveria ser dela. Em uma única manhã, o Projeto Limpeza dos Mares retirou cerca de 10 toneladas de resíduos da faixa de areia, dos costões e do entorno da praia urbana em Florianópolis. O número impressiona. O inventário constrange. Tinha marmita de isopor, colchão, roupa, documento, lâmpada, garrafa, material de construção, peça de computador, capacete, banco de moto, tampa de forno e até fita cassete. 

A ação merece reconhecimento. O projeto já soma 205,272 toneladas de lixo recolhidas em 53 etapas e envolve voluntários, empresas, entidades náuticas, estudantes e instituições públicas. É trabalho sério e necessário. Mas também escancara uma pergunta que não cabe no saco de lixo. Por que uma cidade que vive do mar precisa depender tanto de mutirão para retirar aquilo que não deveria chegar à praia?

O lixo na praia não nasce na areia. Ele vem da rua, da boca de lobo, do rio, da drenagem ruim, do descarte sem fiscalização, da coleta que falha, da obra que deixa rastro, da educação ambiental que aparece em campanha e desaparece na rotina. Por isso, o tema conversa diretamente com saneamento. Saneamento é cidade funcionando antes da sujeira virar paisagem. É drenagem, gestão de resíduos, fiscalização, manutenção urbana, presença pública e capacidade de impedir que o problema chegue ao mar.

A Praia do Jardim Atlântico mostra um problema que Florianópolis costuma empurrar para baixo do tapete azul da paisagem. As praias urbanas próximas aos centros muitas vezes ficam viradas de costas para o mar, pouco cuidadas e vulneráveis ao abandono. Quando falta serviço público e fiscalização, o espaço vira depósito. E quando vira depósito, o mar devolve.

Projetos como o Limpeza dos Mares deveriam existir para educar e complementar. Não para ocupar o vazio deixado por políticas públicas insuficientes. Apoio institucional é importante, mas não substitui responsabilidade direta. A cidade que vende natureza como marca precisa tratar lixo, saneamento e fiscalização como prioridade de governo, não como mutirão de fim de semana.

O lixo recolhido saiu da praia. A conta ficou na areia. E ela aponta para uma cidade que ainda precisa entender que cuidar do mar começa muito antes da onda quebrar.

Foto: Mundo Mar

Você também pode gostar:

Edit Template

© 2025 Rafael Martini | Jornalismo Independente