Florianópolis quer ampliar o número de praias com Bandeira Azul e mira Moçambique, Daniela e Açores como próximas candidatas à certificação internacional. A ambição é legítima, mas deveria soar menos como troféu e mais como cobrança. O selo avalia qualidade da água, segurança, gestão ambiental, educação ambiental, acessibilidade e infraestrutura turística. Para uma cidade que vive do mar, vende natureza e depende da confiança de moradores e turistas, buscar esse padrão deveria ser obrigação, não peça de vitrine.
O problema é que Florianópolis conhece bem a distância entre o discurso ambiental e a água que aparece nos relatórios.
A Lagoa do Peri, tantas vezes usada como exemplo por suas certificações, também já escancarou sinais de alerta. Em 2021, pesquisadores da UFSC apontaram presença elevada de saxitoxina, uma toxina produzida por cianobactérias, com registros de até seis microgramas por litro em períodos de calor, o dobro do limite permitido para água tratada no Brasil. O dado não é pequeno. A lagoa abastece parte relevante da cidade, recebe banhistas, influencia o entorno e tem conexão com o mar pelo Canal do Sangradouro.
Em 2025, veio outro aviso. A Lagoa do Peri foi considerada imprópria para banho pela primeira vez desde 2018, com 988 Escherichia coli por 100 mililitros no ponto em frente à sede do parque. No mesmo relatório, Florianópolis tinha apenas 53 dos 87 pontos próprios para banho, o equivalente a 60,92%. Esse é o dado que desmonta qualquer propaganda. A capital que busca reconhecimento internacional convive com uma realidade primária demais para ser tratada como detalhe.
A prefeitura atribuiu o resultado às chuvas, argumento que sempre aparece quando a balneabilidade piora. Mas chuva não cria esgoto. Chuva revela o que a cidade não resolveu. Quando a drenagem é antiga, quando há ligações irregulares, quando o sistema não acompanha o crescimento urbano e quando obras de saneamento se arrastam por décadas, a chuva apenas empurra o bastidor para a superfície.
O Sul da Ilha conhece essa novela sem precisar de tradução. A ETE Rio Tavares e Campeche é uma obra esperada há mais de 20 anos. A discussão sobre emissário, contrato com a Casan, falta de investimento e metas antigas do Plano Municipal Integrado de Saneamento mostra que o problema nunca foi falta de diagnóstico. É falta de decisão, dinheiro bem aplicado e coragem política para tratar saneamento como o que ele é: saúde pública, infraestrutura urbana, proteção ambiental e base da economia turística.
A Bandeira Azul pode ser uma conquista importante, mas não pode virar maquiagem de paisagem. O turista pode chegar pelo azul da bandeira. O morador fica para lidar com esgoto, drenagem, lixo, rio contaminado, vala aberta, ponto impróprio e promessa repetida. Praia certificada é boa notícia. Cidade saneada é outro assunto.
Florianópolis tem beleza natural suficiente para ser referência mundial. O que falta é parar de tratar a natureza como argumento de venda e começar a tratá-la como infraestrutura essencial. Moçambique, Daniela e Açores podem entrar no mapa internacional do turismo sustentável, e isso deve ser celebrado se vier acompanhado de gestão real. Mas a cidade não pode escolher alguns cartões-postais para parecer que chegou lá enquanto o saneamento segue como uma dívida histórica escondida debaixo da areia.
-22 de maio de 2026
