O arquivamento do caso Orelha deixa uma lição que vai além do inquérito. Em tempos de rede acelerada, autoridade apressada e comoção transformada em sentença, o bom jornalismo continua sendo uma das poucas barreiras entre o fato e o linchamento. Foi isso que esse episódio expôs em Florianópolis. Antes da verdade, vieram os culpados. Antes da perícia, vieram os julgamentos. Antes da conclusão técnica, vieram nomes, rostos, endereços e rotinas lançados ao tribunal das redes.
Durante meses, adolescentes foram transformados em autores de um crime que ainda não estava provado. No início de fevereiro, o inquérito já tratava um dos menores como responsável, mesmo sem prova direta e com pedido de internação provisória. A partir dali, a investigação perdeu espaço para a condenação pública. Famílias mudaram hábitos para proteger os filhos. A saúde mental desses adolescentes entrou na conta. E esse talvez seja o dado mais grave do caso: a velocidade com que uma acusação mal sustentada pode se tornar verdade social quando encontra internet e desejo coletivo de punição.
O que o Ministério Público apresentou agora desmonta a narrativa que ganhou força fora dos autos. Foram quase 2 mil arquivos analisados entre vídeos, celulares, fotografias e depoimentos. As imagens do condomínio estavam 30 minutos adiantadas em relação ao sistema público. Corrigida a linha do tempo, o cão aparecia a cerca de 600 metros dos adolescentes no momento da suposta agressão. Os laudos também afastaram fraturas e lesões compatíveis com violência e apontaram uma condição grave e preexistente de infecção como causa da morte. No fim, os fatos não confirmam a versão que dominou as redes sociais.
É justamente aí que o bom jornalismo importa. Não para correr atrás do boato mais forte, nem para servir de caixa de ressonância da indignação do dia. Jornalismo sério serve para fazer a pergunta incômoda quando todo mundo quer só repetir a resposta emocional. Serve para perguntar o que falta, onde está a prova, o que a perícia diz, quem se aproveita da comoção e por que tanta gente tem tanta pressa em fechar um caso antes da hora.
O caso Orelha precisa deixar um legado que vá além da dor e do erro. Se houver distorção, ela precisa ser apurada. Se houver oportunismo, ele precisa ser nomeado. Mas, acima de tudo, a cidade precisa lembrar que comoção não substitui prova e que justiça não pode ser feita por impulso. Quando a verdade chega depois, o estrago já foi feito. E é justamente por isso que o bom jornalismo ainda importa tanto.
-14 de maio de 2026
