Florianópolis demorou para admitir uma obviedade que sempre esteve na paisagem. Uma cidade cercada de água não pode seguir tratando o mar apenas como cartão-postal enquanto empurra quem trabalha longe para horas de ônibus, ponte travada e deslocamentos que desgastam a vida antes mesmo do expediente começar. O projeto do transporte marítimo nasce com mérito porque finalmente encara uma solução que a geografia da capital oferece há muito tempo.
Mas também nasce com um vício que precisa ser enfrentado logo de saída.
A primeira rota prevista liga a região do Rio Araújo, no Abraão, até a Beira-Mar Norte, justamente onde está em implantação a marina. A prefeitura prevê integração com ônibus, barcos para 100 a 200 passageiros e subsídio entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão por mês, algo em torno de R$ 12 milhões por ano. O problema não é investir. O problema é o sentido do investimento. Transporte marítimo não pode entrar no debate como apêndice de marina bonita, paisagismo valorizado e projeto que conversa mais com a vitrine da cidade do que com a rotina de quem cruza a ponte espremido para estudar ou trabalhar.
Se Florianópolis quiser acertar, precisa olhar para cidades que usam a água como mobilidade, não como luxo eventual. O sistema aquaviário da Grande Vitória é um exemplo ao conectar cidades e encurtar distâncias de forma regular. Aqui, o transporte pelo mar precisa nascer para aproximar trabalhador do emprego, desafogar trajetos longos, distribuir melhor a mão de obra entre Ilha e Continente e reduzir a desigualdade no tempo gasto para viver.
Florianópolis precisa dessa ideia com foco no povo. Porque cidade que planeja só para quem atraca esquece de quem acorda cedo para fazer tudo funcionar.
-11 de maio de 2026
