Pouco mais de 90 dias depois da morte do cão Orelha, que se transformou em um dos fenômenos mais icônicos da história recente de Santa Catarina, o caso caminha para um desfecho, de certa forma previsível, para quem não se deixou levar pela histeria coletiva: a falta de provas consistentes pode resultar no pedido de arquivamento. O fato ocorreu na madrugada de 4 de janeiro, com a morte confirmada no dia 5. A repercussão ganhou tração entre 17 e 24 de janeiro, quando o episódio rompeu a bolha local e virou pauta nacional, alcançando depois repercussão internacional.
A investigação foi concluída pela Polícia Civil em fevereiro, após análise de centenas de horas de imagens e dezenas de depoimentos. O inquérito apontou para a responsabilização de um adolescente — uma resposta institucional à pressão pública que já havia atingido seu ápice.
Mas o eixo muda na etapa seguinte. Diante de lacunas, o Ministério Público de Santa Catarina não avançou com a denúncia, pediu novas diligências e aprofundou a investigação — o que mantém o processo em aberto, com perguntas centrais ainda sem resposta.
Sem prova técnica robusta, o caso perde sustentação jurídica. O que parecia evidente no tribunal das redes enfrenta agora o crivo do devido processo legal, onde convicção não substitui evidência.
A virada se consolida na perícia. A exumação não confirmou de forma conclusiva a causa da morte, e a ausência de elementos técnicos claros fragiliza o caso no seu núcleo — rompendo a narrativa construída fora dos autos.
Há ainda um capítulo pouco debatido. Os únicos efetivamente penalizados até agora, em descompasso com o Estado Democrático de Direito, foram os familiares dos adolescentes e os próprios jovens, expostos publicamente à revelia das garantias previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Atentar contra a vida de um animal é um crime bárbaro. Mas o que se viu, com o caso nos trending topics globais, foi mais do que indignação: foi uma espécie de Guerra Santa, em que, em nome da vida, se pedia sangue e castigo, sem direito à defesa. A história mostra que as Cruzadas, uma das guerras mais brutais da humanidade, nunca foram movidas apenas pela fé. Em nome da crença de uns, milhares foram mortos — sem vencedores ou vencidos. Como os animais de rua, que seguem invisíveis até o próximo clamor coletivo.
-7 de abril de 2026
