Os números seguem caindo em Santa Catarina, mas o susto está aumentando. No comparativo mais recente da Secretaria de Segurança Pública, o estado registra nova redução nos crimes violentos já no início de 2026. Em janeiro, foram 43 homicídios, contra 50 no mesmo mês de 2025. Em fevereiro, 33 casos, ante 37 no ano anterior — quedas de 14% e 10,8%, respectivamente. No acumulado do primeiro bimestre — principal janela já consolidada do ano — a redução se mantém próxima de 12%, reforçando uma trajetória que já vinha de 2025, quando Santa Catarina fechou com 429 homicídios, 16,4% a menos que em 2024. Os dados sustentam o discurso oficial: o estado segue entre os mais seguros do país, com indicadores sob controle e em queda. Mas, para além das estatísticas, um recorte da vida real em Florianópolis acende o sinal de alerta.
Nos últimos meses, a capital catarinense acumulou uma sequência de episódios que deslocam o debate da frieza dos dados para o impacto direto no cotidiano. Casos com grau elevado de brutalidade — esquartejamento, execuções, confronto armado — passaram a ocorrer justamente em regiões que, até pouco tempo, eram vendidas como sinônimo de qualidade de vida. Os Ingleses e o Santinho são hoje o epicentro mais visível dessa mudança. As mortes de Luciani Estivalet e Alberto Pereira, encontradas em circunstâncias violentas e ainda sob investigação da Polícia Civil, expõem um cenário que vai além de episódios isolados, com indícios de conexão, dinâmica de território e um padrão que começa a se repetir. E não é só ali. A cidade tem assistido a uma escalada de ocorrências que inclui tiroteios, operações policiais frequentes e confrontos ligados à disputa entre facções, um movimento que atravessa o Norte da Ilha, desce para áreas centrais e alcança o Continente, redesenhando, na prática, o mapa da violência urbana. Esse redesenho não começou agora. Em 2025, bairros como Ingleses do Rio Vermelho e Canasvieiras já figuravam entre os que mais registravam ocorrências em Florianópolis, atrás apenas do Centro, um dado que já era alerta, mas que passou quase despercebido, talvez porque ainda fosse possível encaixá-lo na narrativa de exceção.
O que mudou em 2026 não foi apenas a presença do crime, foi a forma. A violência ficou mais explícita, mais cruel e, principalmente, mais visível em espaços de circulação cotidiana e apelo turístico, lugares onde o imaginário coletivo ainda insiste em enxergar proteção simbólica. Nenhum caso traduz melhor essa ruptura do que o assassinato da estudante Catarina Kasten, de 31 anos, ocorrido em 21 de novembro de 2025, em uma trilha na região da Praia do Matadeiro, em Florianópolis, um episódio em que o impacto não foi apenas pelo crime em si, mas pelo cenário, já que a trilha, associada à natureza, ao lazer e à liberdade, foi subitamente ressignificada, e quando a violência ocupa esses espaços, ela deixa de ser percebida como distante e passa a ser sentida como possível. É o momento em que a estatística perde força. A Secretaria de Segurança afirma que mantém o controle da ordem pública e que os indicadores seguem positivos, e, tecnicamente, estão, mas há um limite claro entre o que os números mostram e o que as ruas sentem. Quando corpos aparecem em bairros turísticos, quando execuções rompem a rotina e quando a brutalidade ganha contornos que chocam até uma cidade acostumada à ideia de segurança, o debate deixa de ser apenas policial, passa a ser urbano, econômico e, sobretudo, simbólico. Porque Florianópolis vende uma promessa, e essa promessa começa a ser tensionada.
No fim, a pergunta que fica não é sobre quantos homicídios caíram no papel, é sobre até quando será possível tratá-los como exceção. Como diz um velho ditado manezinho: é raro, mas acontece muito.
-27 de março de 2026
