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Redação

segunda-feira - 23 de março de 2026

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23/03/2026

353 anos: crescer é inevitável — evoluir é escolha

Florianópolis chega aos 353 anos reafirmando sua condição de cidade viva — em permanente transformação, entre avanços concretos e dilemas que insistem em permanecer.

A cidade cresce, atrai, valoriza, se projeta — mas segue convivendo com problemas que atravessam décadas. Mobilidade travada, ocupação desordenada, pressão imobiliária, desigualdades cada vez mais visíveis entre regiões. Um roteiro conhecido, que insiste em se repetir.

Mas há um ponto que já não admite mais adiamento — e que deveria estar no centro de qualquer debate sério sobre o futuro da cidade: o saneamento básico.

Não se trata de um detalhe técnico. É o maior dos problemas estruturais de Florianópolis. Impacta diretamente a saúde, o meio ambiente, a balneabilidade das praias e, no limite, o próprio modelo de cidade que se quer vender ao mundo. Não há marina, hotel ou revisão urbanística que sustente uma narrativa de desenvolvimento sem enfrentar, de forma definitiva, essa questão.

E, ainda assim, Florianópolis avança.

Avança impulsionada por novos ciclos de investimento, pela força do turismo, pelo ecossistema de tecnologia e, mais recentemente, por projetos que ajudam a reposicionar a cidade em outro patamar.

A nova marina da Beira-Mar Norte, aguardada há décadas, volta ao centro do tabuleiro. A chegada da bandeira Hilton, junto ao aeroporto — que, diga-se, é hoje um dos mais bonitos do Brasil — sinaliza um salto de padrão na hospitalidade. E a repaginação do CentroSul recoloca Florianópolis na rota dos grandes eventos, com potencial para consolidar a cidade entre os principais destinos corporativos do mundo.

Há uma cidade sendo redesenhada.

Mas há também uma cidade sendo tensionada.

Porque cada novo projeto coloca na mesa uma pergunta incômoda: para quem, de fato, Florianópolis está sendo construída?

E quando se fala em Florianópolis, por óbvio, se pensa na Ilha de SC. Mas, quando se olha para Floripa de verdade, é preciso incluir o Continente — tantas vezes esquecido no imaginário coletivo, mas parte essencial da história e da vida da cidade.

Coqueiros, que já foi o principal balneário até os anos 1970, carrega essa memória e hoje se consolidou como uma das principais rotas gastronômicas da cidade. O Abraão, pequeno, no limite com São José, segue sendo chamado pelo nome por quem conhece suas raízes. E ali, entre o cotidiano e a simplicidade, está um dos cartões-postais mais autênticos da cidade: o pôr do sol que divide protagonismo com Itaguaçu — e que, para muitos, é simplesmente o mais bonito de Florianópolis.

A Ilha de SC vive um momento decisivo. Entre o desejo de se tornar uma vitrine global e o risco de se distanciar da própria essência.

Não é sobre frear o desenvolvimento. É sobre dar direção a ele.

Porque crescer sem planejamento — e sem resolver o básico — não é evolução. É repetir erros em escala maior.

Cheguei há 27 anos. Fui acolhido a ponto de me tornar cidadão honorário. Aqui nasceram minhas filhas e construí minha identidade.

Saí por um tempo, vivi dois anos no Canadá. Mas foi preciso distanciar para entender: não existe outro lugar.

Florianópolis não foi só uma escolha. Foi um chamado.

As bruxas da Ilha de SC, dizem, escolhem quem pode ficar.

E quando elas te dão o visto de permanência, não é sobre morar. É sobre pertencer — até o fim.

Palavra deste morador do Abraão.

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