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Redação

quarta-feira - 11 de fevereiro de 2026

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11/02/2026

Tempestade perfeita coloca SC no olho do furacão digital

O impacto causado à imagem de Santa Catarina pela sucessão de fatos negativos neste início de 2026 certamente será objeto de estudo de caso pela academia. Seja na economia, na política ou no campo social, ainda é impossível dimensionar o tamanho e a duração dessa maré. No mínimo, renderá artigos, palestras, livros — e uma boa grana para uma das profissões mais rentáveis da era digital: especialistas em gestão de crise e reputação.

O primeiro — e, sem dúvida, o mais ruidoso — foi a morte do cão Orelha, episódio que extrapolou fronteiras e chegou aos trending topics mundiais.

A partir dali, como em um efeito dominó às avessas, vieram à tona versões envolvendo nomes e famílias sem qualquer culpa formada, além de personagens mais preocupados em ganhar likes do que em conduzir o processo investigativo. O resultado não poderia ser outro: um inquérito frágil, que levou o Ministério Público a pedir novas diligências e até a exumação do corpo do animal.

Somou-se a isso o flagrante desrespeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), justamente por quem deveria zelar por seu cumprimento. O artigo 143 é claro ao determinar que investigações envolvendo menores devem correr em segredo de Justiça. O que se viu, porém, foram coletivas, exposição pública e um espetáculo midiático.

Por trás da dimensão que o caso ganhou, havia algo ainda mais estruturado: uma engrenagem organizada de milícias digitais que se apresentam como defensoras dos animais, mas que, na prática, trabalharam para ver sangue nas redes. Produziram desinformação, distorceram fatos, criaram culpados e alimentaram o linchamento virtual em escala industrial.

O modus operandi foi claro e planejado — à imagem e semelhança dos extremismos digitais, de esquerda e de direita: engajamento acima da verdade, emoção acima dos fatos, cancelamento como método.

Na sequência, a decisão do governo estadual de não aderir ao pacto nacional de combate ao feminicídio — por pura birra eleitoral — desperdiçou a oportunidade de mostrar ao país que o Estado possui políticas públicas consistentes para enfrentar essa tragédia social. Logo depois, surgiram campanhas abertas nas redes defendendo que turistas deixassem de visitar Santa Catarina.

Tudo isso explodiu justamente na abertura do segundo mês da temporada de verão — período que deveria ser histórico, mas que ficou cerca de 20% abaixo das expectativas iniciais.
Há ainda um ponto estrutural pouco debatido. Com exceção de aeroportos e rodoviárias, que registram com precisão o fluxo de passageiros, o Estado opera no famoso “chutômetro” quando fala de turismo. Não existe ferramenta capaz de medir com efetividade o número real de visitantes. Crescimento e queda acabam sendo, muitas vezes, mais narrativa do que dado.

Como se não bastasse, nesta terça-feira (10) veio a “cereja do bolo”. O plenário do Superior Tribunal de Justiça afastou, por unanimidade, o ministro catarinense Marco Aurélio Gastaldi Buzzi, após a abertura de sindicância para apurar denúncias de importunação sexual.
Ele é alvo de duas acusações: uma de uma jovem de 18 anos, em Balneário Camboriú, e outra de uma servidora que relatou assédio dentro do gabinete no próprio tribunal. A defesa nega os fatos.

O episódio apenas adicionou combustível a uma narrativa já em combustão.

É fundamental registrar: analisar o impacto de imagem não significa relativizar crimes. Todos os atos devem ser investigados e punidos, respeitado o devido processo legal. Justiça se constrói com provas. Reputações, porém, são moldadas — e destruídas — no ambiente simbólico das redes.

É notória a quantidade de indicadores positivos de Santa Catarina nas mais variadas áreas. Mas, na era da hiperconectividade, narrativas passaram a pesar mais do que fatos.

E, no fim das contas, permanece atual uma lição milenar: mesmo na era da hiperconectividade, à mulher de César não basta ser honesta — é preciso parecer honesta.

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