Hoje, 4 de fevereiro, completa-se um mês do espancamento e da consequente morte do cão Orelha, na Praia Brava, em Florianópolis — um caso em que o clamor por justiça implacável aos suspeitos ganha, a cada dia, mais musculatura digital, tanto no Brasil quanto no exterior.
E como em todo espetáculo em que a dor real vira palco público, o desfecho oficial veio na véspera: na noite desta terça-feira, a cúpula da Polícia Civil, amparada nas declarações de dois delegados com falas visivelmente orientadas e de tom protocolar, divulgou a conclusão do inquérito como quem tenta baixar o pano de um teatro já incendiado no palco, na plateia e até mesmo nos bastidores.
O que se seguiu desde então foi menos uma investigação conduzida em silêncio institucional e mais uma encenação calculada, com alguns atores sendo expostos ao escárnio coletivo, nitidamente contra suas próprias convicções, com personagens bem definidos, conflitos inflados e um enredo movido por emoção.
É verdade que todos os arquétipos clássicos estão ali — o protagonista trágico, o manipulador invisível, a autoridade vacilante, o coro enfurecido, os inocentes esmagados. Mas seria uma heresia comparar esse enredo à obra de William Shakespeare.
O que se viu no caso Orelha não foi tragédia no sentido nobre do teatro. Foi uma tragicomédia grotesca, marcada por vaidades, ruídos, espetacularização e uma sucessão de trapalhadas institucionais — tantas que, em outro contexto, até seriam cômicas, não fosse o crime bárbaro que está na origem de tudo.
No século XVI, a obra de Shakespeare já descrevia esse tipo de enredo em que narrativas se impõem aos fatos, emoções substituem processos e a multidão assume o papel de juíza. A partir daí, seguiu-se à risca um roteiro perverso: um inocente morto, autoridades afoitas, multidões enfurecidas, manipuladores invisíveis e uma lei poderosa ignorada em cena.
O protagonista trágico surgiu cedo — aquele que, culpado ou não, já estava condenado antes mesmo de qualquer manifestação do Ministério Público ou da Justiça, como em Otelo, quando a narrativa passa a valer mais do que a verdade. O vilão não tem rosto: são as milícias digitais, capazes de transformar dúvida em certeza e suspeita em sentença.
No centro do palco, a autoridade vacilante lembrou os reinos instáveis de Rei Lear, onde o poder fala alto no início, mas perde o controle da própria história à medida que o caos cresce. Parte da imprensa, como bufão moderno, amplificou ruídos, publicou versões apressadas e ajudou a inflar o incêndio.
No meio da engrenagem, o porteiro surgiu como o inocente esmagado — o elo mais frágil pagando o preço mais alto, como tantas vítimas colaterais das tragédias clássicas. E então veio o coro das redes sociais, que, como em Júlio César, muda de humor com rapidez, pede cabeças e se convence de estar fazendo justiça.
Enquanto isso, personagens influentes da alta sociedade entraram em cena na tentativa de coação, mostrando que o caos não respeita hierarquias nem salões refinados. No ato final, surgiram os mensageiros oficiais — delegados diante das câmeras, lendo textos em teleprompter, nitidamente cumprindo ordens.
E soterrado por todos, o personagem mais poderoso — e mais ignorado — da peça: o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), forte no papel, inexistente na prática. Na divulgação oficial, só faltou a foto do jovem: horários, deslocamentos e roupas foram expostos como num roteiro de linchamento público.
No centro de tudo, permaneceu o único verdadeiramente inocente: Orelha — como nas grandes tragédias, o primeiro a morrer e o mais usado por todos os lados da narrativa.
O esforço final era claro: encerrar o espetáculo, conter a fúria, baixar o pano.
Mas tragédias mal conduzidas raramente terminam quando se anuncia o fim.
O efeito foi o oposto.
Mais gasolina nas redes sociais.
Afinal, em terra de ouvidos moucos, orelhas sempre incomodam.
