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Redação

quarta-feira - 4 de fevereiro de 2026

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04/02/2026

O Preço da Pele

O relato do jovem Dennys, que chegou em casa só querendo chorar após ser chamado de “nego” por uma cliente, é mais do que um caso isolado; é sintoma gritante de doença social que teima em persistir. Em pleno 2026, é desolador que cenas como essa, registradas em câmera e vividas na pele, ainda façam parte da rotina de brasileiros. Esse episódio em Florianópolis escancara o abismo entre a ilusão de democracia racial e a realidade crua da intolerância que humilha, fere e marginaliza.

O maior absurdo reside na premissa falaciosa que sustenta o racismo: a de que o tom da pele define o caráter, a capacidade ou o valor das pessoas. O que a melanina pode determinar, além de uma característica física tão irrelevante quanto a cor dos olhos ou o tipo de cabelo? Nada. A cor da pele não é indicativo de inteligência, honestidade, educação ou dignidade. Reduzir o ser humano complexo a insulto racial é ato de profunda irracionalidade e covardia, que ignora por completo a individualidade e a humanidade da vítima e fala mais sobre quem o fez do que sobre a vítima.

O impacto, no entanto, é devastadoramente real e concreto. A dor expressa por Dennys – “passei muito tempo chorando de verdade” – vai além do momento da agressão. É a ferida de se sentir inferiorizado em sua própria terra, de ter a autoestima dilacerada por ódio infundado. São noites sem dormir, a vontade de não levantar da cama e o sofrimento íntimo que se soma ao histórico coletivo de violência contra negros no Brasil. O racismo rouba a paz e impõe fardo psicológico inaceitável.

Felizmente, há reação social crescente e necessária. A posição firme da empresária, que afirmou que a situação não ficará impune, e a existência de delegacias especializadas são passos importantes. Responsabilizar judicialmente os agressores é crucial, mas a batalha maior é cultural: é preciso expor a absurdidade do preconceito, educar as novas gerações e criar ambiente onde episódios como o relatado sejam cada vez mais raros e veementemente rejeitados por todos.

Portanto, enquanto houver um Dennys chorando em casa, trabalhador sendo insultado no emprego ou pessoa julgada pela cor de sua pele, a luta não pode cessar. O fim do racismo exige mais do que leis; exige uma transformação diária de mentalidades, um compromisso coletivo com a empatia e o respeito. A pele define apenas a pele. A humanidade deve ser o valor universal que nos defina como sociedade.

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