Comercial

Redação

quarta-feira - 4 de fevereiro de 2026

Comercial

Redação

04/02/2026

Caso Orelha expõe dois males: provincianismo e tribunal das redes

O indiciamento pela Polícia Civil de dois empresários e um advogado por coação no caso do cão Orelha marca um ponto de inflexão. Para além da brutalidade contra um animal — que chocou Florianópolis e ganhou projeção nacional e internacional — o episódio expõe um traço profundo da cultura local: o provincianismo.

O crime também evidencia outro sintoma da sociedade contemporânea. Nas redes sociais, até o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi marcado em publicações que pedem a prisão de dois jovens, apontados como principais suspeitos do crime, mas que estão em viagem de férias nos Estados Unidos, junto com mais de uma centena de adolescentes em visita a um parque temático. Nesse ambiente, capturado pela lógica dos algoritmos, o tribunal das redes sociais atropela o devido processo legal, expõe nomes, endereços e telefones, julga e condena sem contraditório e ampla defesa. Basta imaginar a situação dos pais dessa centena de jovens, que saíram para o sonho das férias de verão e passaram a conviver com ameaças virtuais de prisão, deportação e linchamento. A gravidade da ação dos jovens não está em discussão — o ponto é reafirmar o respeito à vida e também aos animais.

Aqui, o foco vai além do crime em si e recai sobre a reação coletiva.

Quando episódios dessa natureza alcançam determinadas camadas sociais, a cidade revela um padrão recorrente: redes de proteção informal, tentativas de intimidação, silêncios estratégicos e a percepção de que ainda há quem se considere acima do escrutínio público. O indiciamento por coação rompe, ainda que parcialmente, essa engrenagem — e por isso incomoda.

Outro contraste ajuda a dimensionar o caso. O crime ocorreu na Praia Brava, reduto tradicional de famílias abastadas no Norte da Ilha. Ainda assim, Orelha era cuidado havia anos pelos moradores da região, que assumiram espontaneamente sua proteção. O choque entre o cuidado coletivo e a violência praticada afasta leituras simplistas e reforça a gravidade do episódio.

Para compreender por que o caso Orelha provoca tanta tensão institucional, vale um breve resgate histórico.

No início dos anos 1980, na rodovia Baldicero Filomeno, no Ribeirão da Ilha, jovens de famílias abastadas “brincavam” de atirar a esmo. Um morador foi atingido. O desfecho foi um acordo financeiro e o encerramento do caso.

Em 15 de julho de 1989, na Avenida Hercílio Luz, o colunista Norton Batista da Silva foi assassinado com seis tiros. O crime jamais foi plenamente esclarecido e permanece como uma das páginas mais incômodas da história da cidade.

Já nos anos 2010, Florianópolis voltou a conviver com um caso de grande repercussão envolvendo o filho de um empresário da área de comunicação do Sul do país, acusado de estuprar uma adolescente. Mais uma vez, a condução do processo expôs o cuidado extremo quando determinadas fronteiras sociais são cruzadas.

Há um elemento comum nesses episódios: os envolvidos compartilham formação educacional no ambiente mais tradicional da elite local.

Convém fazer uma ressalva. Não há base para apontar falha no sistema educacional. Os envolvidos representam uma ínfima parcela entre milhares de estudantes. Índole e caráter se aprendem em casa. Ainda assim, as relações pessoais construídas nesses ambientes reverberam na vida adulta e influenciam a forma como casos sensíveis são tratados.

Da mesma forma, não cabe atribuir o problema a uma suposta “personalidade ilhéu”. O provincianismo existe em qualquer comunidade. A diferença está na disposição — ou não — de enfrentá-lo quando se manifesta.

Florianópolis foi, até o início do século 21, uma cidade pequena. As famílias tradicionais se conhecem. Magistrados, membros do Ministério Público, delegados e servidores públicos frequentemente dividiram bancos escolares e círculos sociais. Isso não implica ilegalidade, mas cria um ecossistema de proximidade que exige vigilância permanente.

O caso Orelha escancara esse modelo.

E evidencia outro sintoma grave: o tribunal das redes sociais.

No ambiente virtual, pessoas são expostas, julgadas e condenadas em tempo real. O devido processo legal cede lugar ao ruído.

Isso não é justiça. É linchamento digital.

O paradoxo é claro: denuncia-se, corretamente, a cultura da blindagem e do privilégio, enquanto se reproduz uma prática igualmente nociva, que corrói valores básicos como respeito, ética e presunção de inocência. Uma sociedade capturada por algoritmos não se torna mais justa — apenas mais ruidosa e mais cruel.

O caso Orelha pode — e deve — ser um marco. Não apenas no combate aos maus-tratos contra animais, mas numa reflexão mais ampla sobre como Florianópolis lida com poder, pertencimento e justiça.

A cidade precisa decidir se quer continuar funcionando como Desterro — ou amadurecer, de vez, como sociedade.

Você também pode gostar:

Edit Template

© 2025 Rafael Martini | Jornalismo Independente