Nascido em Florianópolis, em 1937, e falecido em 2001, aos 64 anos, Hiedy de Assis Corrêa, o Hassis, foi um dos principais artistas visuais de Santa Catarina, com reconhecimento nacional e trajetória marcada pela arte pública. Pintor e muralista, fez da cidade suporte e narrativa. Um painel criado por ele em 1972, que permaneceu por mais de cinco décadas no muro da antiga Clínica de Olhos São Sebastião, na Rua São José, no Centro de Florianópolis, foi demolido na semana passada durante uma intervenção imobiliária.
O episódio não pode ser tratado como irrelevante. A retirada de um painel histórico, integrado à paisagem urbana por gerações, expõe fragilidades na forma como a cidade lida com seu patrimônio cultural. Mais do que um elemento visual, tratava-se de um registro simbólico, parte da memória coletiva da capital.
O mural apresentava traços característicos da produção de Hassis, com narrativa ligada ao cotidiano e leitura social direta — linguagem que tornou seu trabalho reconhecível e acessível fora dos circuitos tradicionais de museus e galerias. Inserido no espaço urbano, funcionava como patrimônio compartilhado, acessível a quem circulava pela região central.
A eliminação desse tipo de referência empobrece o espaço comum. Quando marcos culturais são suprimidos sem a devida ponderação sobre seu valor histórico, perde-se uma camada relevante de significado urbano e de identidade.
As circunstâncias da intervenção e suas eventuais implicações legais deverão ser avaliadas pelas instâncias competentes, à luz da legislação que trata da proteção do patrimônio cultural, do ordenamento urbano e dos direitos autorais.
É fundamental reconhecer que o desenvolvimento urbano tem na construção civil um dos pilares da economia local, essencial para emprego, renda e dinamismo da cidade. Justamente por isso, o episódio deve servir como ponto de reflexão e oportunidade para avançar em modelos mais integrados de diálogo entre empreendedores, poder público e setor cultural.
Cidades tidas como referência global são aquelas em que desenvolvimento urbano e memória cultural conversam em favor da qualidade de vida no presente.
