O vídeo, com ataques à comunidade do Morro do Mocotó, em Florianópolis, gerou revolta, denúncias ao Ministério Público e uma reação imediata. O conteúdo é abjeto. O discurso é violento, discriminatório e incompatível com qualquer parâmetro civilizatório. Isso não está em debate. O que precisa ser discutido, à luz da profundidade que o tema exige, é o método por trás do episódio.
Nada nesse vídeo parece casual. Nada soa improvisado. Dois jovens vindos de Joinville escolhem Florianópolis, escolhem uma comunidade específica, escolhem um tom tão extremo que ultrapassa até o padrão da retórica radical mais comum no ambiente digital. Escolhem palavras calculadas para ferir, imagens pensadas para chocar e símbolos explícitos de extermínio — como camisetas que glorificam a morte. Não se trata de explosão emocional. Há sinais claros de encenação política.
A pergunta central não é apenas o que foi dito, mas por quê? O discurso não se limita a ofender. Ele constrói inimigos. Associa território, raça, migração e pobreza à criminalidade. Simplifica a realidade em cidadãos e “lixo”. Essa linguagem não nasce do acaso. Ela tem histórico, manual e finalidade. Serve para inflamar, dividir, produzir reação em cadeia e, sobretudo, criar palco.
E o palco se abriu. O vídeo publicado nas redes sociais recebeu algum apoio marginal, como era previsível, mas foi amplamente rechaçado, com a maioria esmagadora dos comentários criticando a narrativa, o tom e o conteúdo. Ainda assim, abriu espaço para que atores políticos corressem às plataformas digitais em defesa da comunidade atacada, convertendo indignação legítima em capital simbólico. Defender o Mocotó é correto. Ignorar que alguém pode se beneficiar politicamente desse tipo de episódio é ingenuidade.
Do ponto de vista jurídico, os indícios são graves. Há elementos consistentes de racismo, crime imprescritível e inafiançável. Há traços evidentes de xenofobia, ao associar migrantes à criminalidade de forma genérica e degradante. E há apologia à violência, ao naturalizar a morte como política pública. Isso não é opinião protegida pela liberdade de expressão. É conduta com potencial concreto de dano social.
Por isso, a denúncia ao Ministério Público e à Polícia Federal é correta e necessária. Mas a apuração não pode se limitar ao conteúdo isolado do vídeo. É preciso investigar contexto, timing e interesses. Quem estimulou esse discurso? Quem se beneficia do choque? Quem aparece como protagonista depois que o ambiente já foi incendiado?
Seria leviano afirmar, por enquanto, que o vídeo foi encomendado ou roteirizado por terceiros. Mas ignorar a possibilidade de que haja interesses políticos por trás de uma peça tão extrema, tão calculada e tão eficaz em gerar reação também seria fechar os olhos para a realidade do jogo político contemporâneo.
O episódio se assemelha muito mais a uma cortina de fumaça do que a um ato isolado de indignação. Uma cortina que confunde, desloca o foco do debate e cria o ambiente perfeito para reorganizar narrativas em um ano eleitoral. O ataque existe, é real e precisa ser punido. Mas seu uso político posterior também precisa ser observado com atenção.
O caso do Mocotó não pode ser tratado apenas como um vídeo ofensivo que saiu do controle. Há sinais demais de cálculo para aceitar explicações simples. Quando o radicalismo é exagerado, o cenário bem montado e o resultado politicamente funcional, a dúvida deixa de ser ceticismo e passa a ser dever cívico.
Cabe às autoridades investigarem com profundidade. Porque, se o método não for exposto, ele se repete. Com outros rostos. Outros alvos. E o mesmo roteiro.
Porque defender a democracia, o respeito à Constituição e à dignidade humana não é posição ideológica — é obrigação civilizatória.
