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Redação

terça-feira - 20 de janeiro de 2026

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20/01/2026

O caos, a bolha e o vazio do debate político

Analistas internacionais têm chamado atenção, nos últimos meses, para um traço comum do mundo atual: a instabilidade global não decorre apenas de conflitos isolados, mas da fragilidade das lideranças das grandes potências — especialmente na capacidade de articulação, mediação e construção de consensos de longo prazo. Esse quadro se agrava em uma sociedade hiperconectada, imediatista e ruidosa, onde a política frequentemente se reduz a espetáculo, confronto permanente ou torcida organizada — e muito bem estruturada — nas redes sociais.

Esse pano de fundo global ajuda a entender muito do que se vê por aqui. Em 2026, o Brasil volta às urnas — como faz, religiosamente, a cada dois anos. E sem qualquer pretensão de posar de fiscal do ofício, chama atenção o quanto o jornalismo político parece, em muitos momentos, descolado do real interesse de uma parcela significativa da sociedade.

O noticiário se ocupa, majoritariamente, de movimentos internos das próprias bolhas: fulano sai do partido X e vai para o Y; beltrano conversa com sicrano; a coligação de Lé com Cré pode dar ré. São notas que falam para dentro, escritas para quem já está no jogo — e não para quem tenta entender o jogo.

O que menos aparece são debates ideológicos no sentido amplo da palavra: visões de Estado, projetos de sociedade, prioridades econômicas, escolhas difíceis. No lugar disso, o que se impõe, na prática, são interesses pessoais, quase sempre fisiológicos, embalados como estratégia ou pragmatismo.

Para o cidadão comum — o cidadão do bem — que está no corre diário, num calendário em que sobra mês e falta salário, preocupado em colocar comida dentro de casa, essa conversa de direita e esquerda soa distante da vida real. Ele sabe, intuitivamente, que quem anda só para um lado ou só para o outro é caranguejo. Ele só quer ir para a frente.

A polarização que domina a política nacional é insalubre, mas está longe de ser novidade. Basta um mínimo de leitura histórica para lembrar que a República nasceu de um golpe militar. Desde então, conspirar contra o ocupante do poder virou quase um traço estrutural da vida política brasileira. Trocam-se os atores, mudam os discursos, mas a lógica persiste. É quase um DNA nacional.
Quando o olhar se desloca para Santa Catarina, o cenário não destoa. Dia sim, dia também, as manchetes orbitam em torno de quem está conversando com quem — para não usar outro verbo. Interesse público e espírito republicano viraram exceção retórica. O que se vê é cálculo, sobrevivência política e rearranjos de ocasião.

Os debates — se é que podem ser chamados assim — raramente apresentam algo propositivo. Discursos empobrecidos, vocabulário raso, frases de efeito e, muitas vezes, mais palavras de baixo calão do que ideias. Sobra ruído. Falta conteúdo.

E aí surge a pergunta que não quer calar — e que deveria inquietar não só jornalistas e políticos, mas também eleitores: quem, afinal, está falando do que realmente importa?

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