A explosão de casos de viroses registrada em Bombinhas, com números quase cinco vezes maiores nesta temporada, escancara um problema que se repete ano após ano ao longo do litoral catarinense — com raras exceções. Os surtos recorrentes revelam uma fragilidade estrutural conhecida: o saneamento básico, historicamente insuficiente, não acompanha a pressão da alta temporada e acaba colocando a saúde pública em risco.
O cenário é previsível. Durante o verão, a demanda por água e esgoto cresce de forma abrupta. Quando a cobertura de coleta e tratamento é limitada — como mostram os dados de 2024 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento Básico (Sinisa), compilados pelo Tribunal de Contas de Santa Catarina (TCE-SC), segundo os quais cerca de 34% da população catarinense tem acesso à rede coletora e pouco mais de um terço do esgoto gerado é tratado — cria-se o ambiente ideal para a contaminação de rios, mananciais e praias.
A distância entre esse quadro e as metas do Marco Legal do Saneamento, que prevê universalização até 2033, é evidente. O desafio não é recente nem pode ser atribuído a uma única gestão. Historicamente, o saneamento nunca foi prioridade, especialmente em regiões turísticas que cresceram mais rápido do que sua capacidade de atendimento. Nesse contexto, é justo reconhecer o esforço técnico e financeiro da concessionária estadual, que ampliou investimentos e estruturou projetos que frequentemente esbarram em entraves fora de sua governança direta.
Mas a equação não se resolve apenas com obras e recursos públicos. A sociedade também precisa assumir sua parcela de responsabilidade. O caso da rede de esgotamento do Campeche, no Sul da Ilha, é emblemático. Apesar de haver recursos, projeto executivo pronto e equipamentos adquiridos, a implantação segue travada pela resistência de parte da comunidade, que vê o emissário submarino como ameaça, ignorando que a alternativa vigente — fossas individuais — mantém o esgoto infiltrado no solo, contaminando o lençol freático e os cursos d’água.
O saneamento exige mais do que investimento: exige informação, diálogo e corresponsabilidade. Obras desse tipo são impopulares no curto prazo, mas indispensáveis no longo. Sem maturidade coletiva, projetos estruturantes permanecem no papel.
Diante de surtos que se repetem a cada verão — tão previsíveis quanto os congestionamentos ou os conflitos com o comércio ambulante — fica claro que soluções pontuais não resolvem. O problema é estrutural e exige planejamento contínuo e engajamento social real.
Neste ritmo, corre-se o risco de comprometer a principal galinha dos ovos de ouro do turismo catarinense: o litoral. Reduzir viroses é importante, mas preservar o ambiente que sustenta o turismo é vital.
Foto: Ricardo Wolffenbuttel
-15 de janeiro de 2026
