Santa Catarina encerrou 2025 com os melhores indicadores de segurança pública dos últimos 18 anos. Homicídios e roubos caíram, a sensação de controle se ampliou e o estado é tido como referência nacional. Os números são claros, objetivos e, por si só, merecem reconhecimento e destaque.
Mas estatísticas têm limites. Elas informam resultados, não revelam escolhas.
O debate que se impôs — e que ocupou praticamente todos os portais — gira em torno da contradição entre a queda da violência e o aumento de 26,6% na letalidade policial. É uma leitura legítima, mas talvez apressada. O ponto central não está apenas no contraste entre dois indicadores. Está na direção silenciosa que esses dados sugerem.
Toda política pública constrói uma narrativa sobre o que o Estado considera aceitável. Quando os resultados positivos passam a ser o principal capital simbólico de uma área sensível como a segurança, surge uma tentação recorrente: naturalizar os meios em nome do fim. Não por decreto, não por discurso explícito — mas por uma tolerância velada, sem voz oficial, que acaba funcionando como estímulo implícito.
Nesse ambiente, ganha força um imaginário simples, rápido e amplamente validado nas redes sociais: o da solução definitiva, da eliminação do problema, da ideia de que eficiência se mede pelo CPF cancelado. O Estado não verbaliza esse discurso, mas também não o confronta com a clareza necessária, permitindo que ele se infiltre no ambiente decisório da ponta da operação.
O risco não é imediato nem espetacular. Ele é cumulativo. Aos poucos, decisões táticas passam a ser tomadas em um campo simbólico onde a preservação da vida deixa de ser critério central e passa a ser relativizada. Não porque alguém ordenou, mas porque o contexto passou a autorizar.
Há uma diferença fundamental entre força legítima e força estimulada pelo aplauso. A primeira sustenta o Estado de Direito. A segunda corrói seus alicerces. Estados verdadeiramente seguros não são apenas os que reduzem o crime, mas os que conseguem fazê-lo sem alterar, no processo, sua própria identidade institucional.
Santa Catarina talvez esteja vivendo um desses momentos raros em que o sucesso exige mais vigilância do que celebração. Bons números, quando lidos como prova de autossuficiência, não geram tranquilidade — geram uma distopia silenciosa, na qual o modelo deixa de ser questionado e passa a se justificar por si mesmo. É nesse intervalo que sistemas começam a se deformar.
Segurança pública não é apenas controle do presente, mas construção de futuro. É política de longo prazo, não resposta emocional a ciclos de aprovação instantânea. A pergunta que se impõe não é se o estado está mais seguro hoje, mas que tipo de segurança está sendo cultivada para amanhã.
Os dados de 2025 mostram competência operacional.
O desafio, agora, é provar maturidade institucional.
Porque reduzir o crime é louvável, mas preservar vidas ainda é a maior demonstração de uma operação verdadeiramente bem-sucedida.
-15 de janeiro de 2026
