O caso envolvendo o Banco Master não inaugura um problema novo. Ao contrário: ele reacende um fantasma antigo do sistema financeiro catarinense, ligado ao Banco do Estado de Santa Catarina (BESC). Desde a incorporação do banco pelo Banco do Brasil, concluída no fim da década de 2000, ativos remanescentes e títulos de baixa ou nenhuma liquidez voltam, ciclicamente, a aparecer em operações financeiras questionáveis.
O episódio mais recente, revelado a partir das investigações sobre o Banco Master, mostra novamente o uso de cártulas antigas, ações e papéis vinculados ao BESC como instrumentos para atribuir valor artificial a ativos sem mercado — prática que depende justamente da ausência de liquidez e da dificuldade de precificação desses títulos. O mecanismo não é novo; apenas se sofisticou.
Já em 2021, um caso semelhante veio à tona quando títulos ligados ao antigo banco catarinense foram utilizados em operações de reforço patrimonial e estruturação financeira, levantando alertas sobre a reutilização de ativos “mortos” como lastro para negócios que, na prática, não se sustentariam em condições normais de mercado. À época, o episódio foi tratado como pontual. Hoje, à luz do caso Master, ganha contornos de padrão recorrente.
O que conecta esses episódios é o mesmo fio condutor: a manipulação de ativos sem valor econômico real, herdados de uma instituição que já havia sido liquidada por problemas estruturais de gestão, governança e solvência. Se, no passado, o BESC simbolizou escândalos ligados à má administração e ao uso político do crédito, agora seu “cadáver institucional” passa a ser reciclado como instrumento de engenharia financeira fraudulenta.
A lição é incômoda, mas necessária. A extinção formal de um banco não significa, necessariamente, o desaparecimento de seus riscos. Ativos mal resolvidos permanecem como toxinas latentes no sistema, suscetíveis a serem reativados por agentes dispostos a explorar brechas regulatórias, contábeis ou de fiscalização.
O fantasma do BESC, portanto, não é apenas uma metáfora. Ele revela uma falha estrutural na forma como o sistema financeiro brasileiro encerra ciclos problemáticos. Enquanto esses resquícios continuarem disponíveis para reinterpretação oportunista, o passado seguirá sendo convocado para alimentar fraudes do presente — com custos que recaem, direta ou indiretamente, sobre a confiança no sistema e sobre a sociedade.
-15 de janeiro de 2026
